Pseudociências / Mente e comportamento
Psicanálise
A teoria freudiana do inconsciente é irrefutável e não acompanhou a psicologia nem a neurociência; e o que a terapia parece fazer de bom se explica pelos fatores comuns a qualquer terapia, não pela técnica. É o caso de pseudociência mais discutido do Brasil.
Origem: Criada por Sigmund Freud em Viena entre 1890 e 1930; ramificou-se em escolas (Jung, Adler, Klein, Lacan, Bion) e segue muito presente no Brasil, na França e na Argentina. Em 2023, sua inclusão no livro “Que Bobagem!”, de Natalia Pasternak e Carlos Orsi, reacendeu o debate público.
O que alega
A mente teria um inconsciente dinâmico que guarda desejos reprimidos, em grande parte sexuais e infantis (complexo de Édipo, fases oral, anal e fálica), organizado em id, ego e superego e movido por pulsões; sintomas, sonhos e atos falhos seriam expressões disfarçadas desses conflitos; e a cura viria de torná-los conscientes pela fala, com a associação livre e a interpretação do analista. Todas as escolas mantêm a base: a interpretação de conteúdos inconscientes e o peso de eventos reprimidos da infância na explicação dos problemas do adulto.
O que a evidência diz
A teoria. Popper notou que a psicanálise explica qualquer comportamento e o seu oposto, o que a torna irrefutável; Adolf Grünbaum mostrou que, onde é testável, tem pouco apoio, e que melhoras clínicas não provam as causas que Freud alegava. Freud construiu o sistema a partir de poucos casos, interpretados por ele mesmo, e há evidência de que distorceu relatos. O “inconsciente” freudiano não é o inconsciente que a ciência cognitiva estuda: a psicologia cognitiva e a neurociência descrevem processos automáticos, memórias não acessadas e vieses implícitos, mensuráveis e sem conteúdo reprimido de natureza sexual; a teoria psicanalítica não fez essas descrições e não acompanhou as descobertas da área. Conceitos centrais, como a sexualidade infantil edipiana e os sonhos como realização de desejos, não encontraram apoio na psicologia do desenvolvimento nem na neurociência do sono. O determinismo psíquico, que liga um sintoma adulto a um evento da infância pela sequência no tempo, é a falácia do post hoc. Por critérios múltiplos de demarcação, como os de Sven Ove Hansson (ciência é a prática que dá as afirmações mais confiáveis sobre seu objeto num dado momento) e a lista aplicada à psicanálise pelo psicólogo C. M. C. Ferreira, a doutrina se comporta como ciência sem ter o suporte evidencial de uma; é a diferença, apontada pelo filósofo Vitor Douglas, entre uma teoria abandonada como a de Lamarck e uma sem evidências que ainda é defendida como confiável. Estar em universidades e no Ministério da Saúde não muda isso: status acadêmico não é critério de cientificidade.
A terapia. Terapias psicodinâmicas de curta duração aparecem em ensaios com efeitos parecidos com os de outras psicoterapias em depressão e ansiedade. Mas isso não valida a teoria, e o motivo é conhecido: a pesquisa em psicoterapia mostra que boa parte do efeito de qualquer terapia vem dos fatores comuns (a aliança com o terapeuta, ser ouvido com atenção, a expectativa de melhora, a explicação que dá sentido ao sofrimento), não da técnica específica. É o chamado “veredito do pássaro Dodô”, de Luborsky, sistematizado por Bruce Wampold: abordagens muito diferentes dão resultados semelhantes. Resultados parecidos entre terapias são exatamente o que se esperaria se a teoria psicanalítica não acrescentasse nada ao ato de escutar. Para condições específicas, como fobias, TOC e transtorno de pânico, há terapias com evidência superior, em geral cognitivo-comportamentais. Por isso a psicanálise perdeu espaço nos sistemas de saúde que seguem diretrizes baseadas em evidências, como as do NICE britânico, e na psiquiatria dos EUA; no Brasil, na França e na Argentina, segue forte por tradição e peso institucional. No Brasil, a psicanálise não é profissão regulamentada, o que permite formações sem supervisão.
Faltam estudos de qualidade que mostrem efeito além do placebo ou do acaso, e não há mecanismo plausível.
Sinais de alerta
- Não pode ser refutada. Qualquer resultado é reinterpretado como confirmação.
- Depende de um fundador. A palavra do criador vale mais do que os testes.
- Não muda com o tempo. Os princípios são os mesmos há décadas ou séculos, apesar de novas descobertas.
- Apoia-se em depoimentos. Relatos pessoais no lugar de estudos com grupo controle.
- Foge da revisão por pares. Prefere livros, vídeos e cursos a revistas científicas.
- Alega perseguição. Explica a falta de aceitação como complô de cientistas, indústria ou governo.
Por que atrai tanta gente
Oferece uma narrativa profunda e pessoal para o sofrimento, uma escuta longa e atenta (que é, em si, parte do que ajuda), e uma linguagem (recalque, trauma, inconsciente) que entrou na cultura. Prestígio intelectual e institucional em vários países, e a defesa frequente de que critérios científicos seriam “cientificismo” ou “positivismo”, um apelo à subjetividade que a protege da crítica.
Riscos
Tempo e dinheiro em tratamentos longos sem evidência de superioridade; atraso em terapias com mais evidência para condições específicas; diagnósticos sem base (como atribuir autismo ou esquizofrenia a mães frias, ideia abandonada mas com danos históricos); “memórias recuperadas” falsas em alguns usos; e, quando oferecida pelo sistema público, recursos escassos desviados de abordagens mais eficazes. Acreditar nela é liberdade individual; financiá-la com dinheiro público é outra questão.
Perguntas para pensar
- Que resultado mostraria que a prática não funciona? Quem a defende aceitaria esse resultado?
- A evidência a favor vem de depoimentos ou de estudos com grupo controle?
- O que eu perderia se trocasse um tratamento eficaz por este?
Lições relacionadas: Popper e a falseabilidade, O critério da demarcação, A psicologia como ciência, Prática Baseada em Evidências (PBE).
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