Ciência
Para Iniciantes
Comece aqui

Intermediário / Filosofia da ciência clássica

Popper e a falseabilidade

Para Karl Popper, uma teoria é científica se pode ser refutada. A ciência avança por conjecturas ousadas e tentativas de derrubá-las.

Na Viena de 1919, o jovem Karl Popper notou algo curioso. Os seguidores de Marx, Freud e Adler encontravam confirmações em tudo: qualquer fato parecia apoiar suas teorias. Enquanto isso, Einstein fazia uma previsão arriscada, a de que a luz das estrelas se curvaria perto do Sol, que podia ter falhado no eclipse daquele ano. Para Popper, era essa disposição de arriscar que fazia a ciência.

Uma analogia

Para Popper, uma teoria científica é como um lutador que aceita qualquer desafiante. Ele nunca prova que é invencível, mas cada luta vencida mostra que merece o título por enquanto. A pseudociência é o lutador que só aceita lutar contra quem não pode derrubá-lo.

Explicando para uma criança

Se você diz “todos os gatos têm rabo”, basta achar um gato sem rabo para mostrar que errou. Popper achava que a ciência boa é aquela que topa ser testada desse jeito.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Explicar o critério da falseabilidade.
  • Descrever o método de conjecturas e refutações e a ideia de corroboração.
  • Avaliar críticas: Duhem-Quine, Kuhn e o caso de Netuno.

Ajuda ter lido: O problema da indução.

Antes de ler: o que você pensa?

Um astrólogo diz: “o horóscopo acerta para quem está aberto a ele; quando não acerta, é porque a pessoa resistiu”.

Como Popper analisaria essa defesa?

Ver o que a lição responde

Como imunização contra a refutação: qualquer resultado confirma a teoria. Uma ideia assim não arrisca nada e, por isso, não é científica.

A falseabilidade

Uma teoria é científica se é falseável: se existe alguma observação possível que a mostraria falsa. “Todos os cisnes são brancos” é falseável: um cisne negro a derruba. “Amanhã choverá ou não choverá” não é: nenhum fato a contradiz, e por isso não diz nada sobre o mundo.

A ideia resolve, para Popper, o problema da indução. Nenhum número de cisnes brancos prova que todos são brancos, mas um único cisne negro prova, por dedução, que nem todos são. A ciência não verifica teorias; tenta refutá-las.

Conjecturas e refutações

O cientista popperiano propõe hipóteses ousadas, que dizem muito e por isso arriscam muito, e as submete aos testes mais severos que consegue imaginar. As que sobrevivem são corroboradas, nunca provadas. O conhecimento científico é sempre provisório: o melhor que temos até agora.

Popper chamou sua filosofia de racionalismo crítico. Ela vale também para a política: uma sociedade aberta é a que permite criticar e corrigir os governos, como a ciência corrige teorias.

Os alvos de Popper

Popper acusava a psicanálise de ser irrefutável: qualquer comportamento podia ser explicado por ela. Quanto ao marxismo, dizia que começou falseável (previu revoluções em países industrializados), foi refutado e, em vez de ser abandonado, recebeu hipóteses extras para salvá-lo. Para Popper, esse resgate ad hoc transforma ciência em pseudociência.

As críticas

  • Duhem e Quine: uma previsão nunca testa uma hipótese sozinha, mas junto com instrumentos, teorias auxiliares e condições. Quando o teste falha, não se sabe qual peça culpar. (Tema do nível Avançado.)
  • Kuhn: cientistas não abandonam teorias na primeira anomalia; e se abandonassem, nenhuma teoria sobreviveria, porque todas têm anomalias.
  • A história: quando a órbita de Urano não batia com Newton, os astrônomos não refutaram Newton; supuseram um planeta desconhecido, e acharam Netuno. Salvar a teoria às vezes é a decisão certa.
  • Corroboração e confiança: se teorias nunca ficam mais prováveis, por que confiar numa ponte calculada com elas? Críticos dizem que a indução volta escondida.
O que sobreviveu: mesmo quem rejeita a filosofia completa de Popper usa a pergunta dele no dia a dia: “o que me faria mudar de ideia?”. Uma afirmação que nenhum fato poderia contrariar deve ser vista com desconfiança.

Para guardar

  • Científico é o que pode ser refutado por alguma observação possível.
  • Teorias nunca são provadas, só corroboradas por testes severos.
  • Críticas: testes envolvem hipóteses auxiliares, e salvar uma teoria às vezes é certo (Netuno).

Para pensar

Que observação faria você abandonar uma das suas crenças mais firmes? Se não consegue imaginar nenhuma, o que isso diz sobre ela?

Erro comum: “Para Popper, se uma teoria é científica, ela é verdadeira.” Ao contrário: científica é a que pode ser falsa. A falseabilidade separa ciência de não ciência, não verdade de falsidade.
Pratique: Que corrente é essa?. Doze frases, seis correntes. Reconheça o ponto focal de cada argumento.
Correntes desta lição: Falsificacionismo, Hipotético-dedutivismo.
Casos para testar: Astrologia, Psicanálise.

Teste rápido · 1 de 3

Aplique · 2 de 3

Confira · 3 de 3