Imre Lakatos e Paul Feyerabend eram amigos e planejavam escrever juntos um livro chamado A favor e contra o método: Lakatos defenderia a racionalidade da ciência, Feyerabend a atacaria. Lakatos morreu em 1974, e Feyerabend publicou só a sua parte, Contra o Método.
Uma analogia
Para Lakatos, um programa de pesquisa é como um castelo: o núcleo é a torre central e o cinturão são as muralhas. Reconstruir muralhas é normal, desde que o castelo continue conquistando território novo. Se só gasta tempo remendando muros, está perdendo a guerra.
Explicando para uma criança
Um cientista achava que dava para saber quando uma ideia estava indo bem: quando ela adivinha coisas novas e acerta. Outro dizia que os grandes cientistas muitas vezes quebraram as regras, então não dá para ter uma regra só.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Explicar núcleo rígido, cinturão protetor e programas progressivos e degenerativos.
- Interpretar o “tudo vale” de Feyerabend e seu pluralismo.
- Avaliar o uso de Feyerabend para defender pseudociências.
Ajuda ter lido: Kuhn e os paradigmas.
Antes de ler: o que você pensa?
Um defensor de uma terapia alternativa cita Feyerabend: “até um filósofo da ciência disse que tudo vale, então minha terapia é tão válida quanto a medicina”.
Feyerabend sustenta essa conclusão?
Ver o que a lição responde
Não. O “tudo vale” era uma ironia contra regras metodológicas rígidas. Mesmo com pluralismo de métodos, as terapias precisam mostrar resultados, e a pergunta continua sendo se funcionam.
Lakatos: programas de pesquisa
Lakatos queria salvar a racionalidade de Popper sem ignorar a história de Kuhn. Para ele, a unidade de avaliação não é uma teoria isolada, mas um programa de pesquisa, com duas partes:
- Núcleo rígido: as hipóteses centrais, que os cientistas decidem não abandonar (em Newton, as leis do movimento e a gravitação).
- Cinturão protetor: hipóteses auxiliares que podem ser ajustadas para absorver anomalias (por exemplo, supor um planeta desconhecido).
Ajustar o cinturão é legítimo, desde que o programa seja progressivo: que os ajustes levem a previsões novas que se confirmam. A hipótese de Netuno previu onde o planeta estaria, e ele estava lá. Um programa é degenerativo quando os ajustes só servem para tapar buracos, sem prever nada de novo, sempre correndo atrás dos fatos.
A regra racional é preferir programas progressivos. Mas Lakatos admitia que um programa degenerativo pode se recuperar, e que não há como saber, no momento, se é hora de desistir.
Feyerabend: contra o método
Feyerabend estudou episódios históricos, como a defesa do heliocentrismo por Galileu, e concluiu que grandes avanços muitas vezes violaram as regras metodológicas da época. Galileu usou retórica, propaganda e argumentos que hoje pareceriam frágeis. Se tivesse seguido o método “correto”, o heliocentrismo teria perdido.
Daí o famoso “tudo vale” (anything goes). Feyerabend explicou que não era uma recomendação, mas uma ironia: se alguém insiste em ter uma regra metodológica universal que nunca atrapalhe o progresso, a única que sobra é essa, vazia. Ele defendia o pluralismo: muitas teorias e métodos competindo, inclusive os marginais, para que cada um teste os outros.
Feyerabend também defendia que cidadãos, e não só especialistas, decidissem sobre o papel da ciência na sociedade, e chegou a defender o direito de tradições não científicas, como a medicina tradicional, de competir com a científica.
Avaliação
- Lakatos é muito usado para avaliar áreas em disputa: programas que só se protegem, sem prever nada novo, perdem credibilidade.
- Feyerabend ajudou a mostrar que a história da ciência é mais bagunçada do que os manuais sugerem. Mas sua defesa de igualdade entre ciência e outras tradições é rejeitada pela maioria dos filósofos: a história bagunçada não apaga a diferença de resultados.
- Feyerabend é frequentemente usado para justificar pseudociências. Ele próprio gostava de provocar, mas seus argumentos eram sobre pluralismo de métodos, não sobre aceitar qualquer conclusão sem teste.
Para guardar
- Lakatos: núcleo rígido protegido por hipóteses auxiliares; progressivo é o programa que prevê o novo.
- Feyerabend: nenhuma regra universal sobrevive à história; defendia pluralismo.
- “Tudo vale” é ironia, não licença para aceitar qualquer coisa sem teste.
Para pensar
Pense numa explicação que você defende. Ela já previu algo novo, ou só se ajusta depois dos fatos?
Teste rápido · 1 de 3
Aplique · 2 de 3
Confira · 3 de 3