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Intermediário / Filosofia da ciência clássica

Kuhn e os paradigmas

Ciência normal, anomalias, crise e revolução: como Thomas Kuhn mudou a forma de ver a história da ciência, e o que ele não disse.

IntermediárioFilosofia da ciência3 min de leitura

Em 1962, o físico e historiador Thomas Kuhn publicou A Estrutura das Revoluções Científicas, um dos livros acadêmicos mais citados do século XX. A ideia central: a ciência não avança de forma contínua, acumulando verdades. Ela alterna longos períodos de estabilidade com rupturas, as revoluções científicas.

Uma analogia

Um paradigma é como as regras de um jogo. Durante a ciência normal, todos jogam e resolvem jogadas difíceis dentro das regras. Quando aparecem lances que as regras não resolvem, alguém propõe um jogo novo, e nem todos os conceitos do jogo antigo fazem sentido no novo.

Explicando para uma criança

Por muito tempo as pessoas acharam que o Sol girava em volta da Terra, e explicavam tudo assim. Aí foram aparecendo coisas que não batiam, até que mudaram a ideia toda: é a Terra que gira em volta do Sol. Kuhn chamou essa mudança grande de revolução.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Descrever o ciclo de Kuhn: ciência normal, anomalia, crise e revolução.
  • Explicar a incomensurabilidade e por que ela é polêmica.
  • Separar o que Kuhn disse das leituras relativistas que ele rejeitou.

Ajuda ter lido: Popper e a falseabilidade.

Antes de ler: o que você pensa?

Uma empresa diz que vai “quebrar paradigmas” com um novo aplicativo de entregas.

Esse uso tem a ver com Kuhn?

Ver o que a lição responde

Pouco. Em Kuhn, paradigma é o conjunto de teorias, métodos e exemplos que organiza uma ciência madura; uma revolução muda o que se considera problema e solução, não só um produto.

O ciclo de Kuhn

  1. Pré-ciência: várias escolas competem, sem acordo sobre o básico.
  2. Ciência normal: a comunidade adota um paradigma, um conjunto de teorias, métodos, exemplos e valores compartilhados. A pesquisa vira “resolução de quebra-cabeças”: aplicar o paradigma a novos casos.
  3. Anomalias: aparecem resultados que o paradigma não explica. No começo, são ignorados ou contornados.
  4. Crise: as anomalias se acumulam e a confiança no paradigma se abala.
  5. Revolução: um novo paradigma surge e substitui o antigo. Exemplos: Copérnico no lugar de Ptolomeu, Lavoisier no lugar do flogisto, Einstein no lugar de Newton.

Incomensurabilidade

A tese mais polêmica de Kuhn é que paradigmas rivais são, em parte, incomensuráveis: não há uma medida neutra para compará-los. Os conceitos mudam de sentido (“massa” em Newton e em Einstein não é a mesma coisa), os problemas considerados importantes mudam, e até o que se “vê” numa observação depende do paradigma. Mudar de paradigma seria parecido com uma mudança de Gestalt, como na figura que é pato ou coelho.

O que Kuhn não disse

Kuhn foi lido como se dissesse que a ciência é irracional, que a escolha entre teorias é questão de moda ou de poder, ou que não há progresso. Ele rejeitou essas leituras. Em textos posteriores, listou valores que guiam a escolha entre teorias: precisão, consistência, alcance, simplicidade e fecundidade. São razões, só que não formam um algoritmo: cientistas competentes podem pesá-las de formas diferentes.

Kuhn também via progresso: paradigmas novos resolvem mais problemas que os antigos. O que ele duvidava é que a ciência caminhe para uma verdade final.

Impacto e críticas

  • A palavra “paradigma” se espalhou para administração, marketing e autoajuda, quase sempre num sentido vago. Uma leitora contou 21 sentidos diferentes do termo no próprio livro.
  • Popper e seus alunos acusaram Kuhn de tornar a ciência dogmática ao valorizar a ciência normal.
  • Lakatos tentou unir Popper e Kuhn; Feyerabend levou Kuhn mais longe (próxima lição).
  • A sociologia da ciência usou Kuhn para estudar fatores sociais na ciência, em direções que ele próprio criticou.
Exemplo brasileiro de anomalia: quando a Covid-19 começou, a ideia de que o vírus se espalhava sobretudo por gotículas grandes foi desafiada por evidências de transmissão por aerossóis. Levou meses para a OMS ajustar suas orientações: um caso pequeno do padrão de resistência a anomalias que Kuhn descreveu.

Para guardar

  • Ciência normal dentro de um paradigma; anomalias, crise e revolução.
  • Paradigmas rivais são em parte incomensuráveis: conceitos e problemas mudam.
  • Kuhn via razões e progresso; a leitura “tudo é poder” não é dele.

Para pensar

Em que área da sua vida você resiste a anomalias para manter um “paradigma” pessoal?

Erro comum: “Kuhn mostrou que a ciência é irracional.” Kuhn mostrou que a escolha de teorias não é um algoritmo, mas é guiada por razões (precisão, alcance, simplicidade) e produz progresso na resolução de problemas.
Pratique: Que corrente é essa?. Doze frases, seis correntes. Reconheça o ponto focal de cada argumento.

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