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Intermediário / Ciência na prática

Vieses cognitivos e o método

Viés de confirmação, raciocínio motivado e ver padrões no acaso: por que o método científico existe para proteger cientistas de si mesmos.

IntermediárioMente e viesesMétodo científico3 min de leitura

“O primeiro princípio é que você não deve enganar a si mesmo, e você é a pessoa mais fácil de enganar.” A frase do físico Richard Feynman resume por que a ciência precisa de método: cérebros humanos têm atalhos que funcionam bem no dia a dia e falham sistematicamente em certas tarefas.

Uma analogia

O método científico é como o cinto de segurança. Ninguém o usa porque acha que dirige mal; usa porque sabe que todo motorista, mesmo o bom, um dia se distrai. Os procedimentos científicos são cintos de segurança contra os nossos vieses.

Explicando para uma criança

Nosso cérebro às vezes nos engana, como quando a gente vê uma cara numa nuvem. Os cientistas inventaram truques, como não saber quem tomou o remédio de verdade, para não se enganarem.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Descrever vieses que ameaçam a pesquisa: confirmação, raciocínio motivado, apofenia, disponibilidade.
  • Associar cada procedimento metodológico ao viés que ele combate.
  • Explicar por que inteligência sozinha não protege contra vieses.

Ajuda ter lido: A postura científica, Experimentos, grupo controle e placebo.

Antes de ler: o que você pensa?

Um professor está convencido de que um novo método de ensino funciona e decide avaliar ele mesmo as provas dos alunos que usaram o método, sabendo quem são.

Que problema há no desenho?

Ver o que a lição responde

Efeito do observador e raciocínio motivado: ele pode corrigir com mais boa vontade os alunos do método. Avaliar às cegas resolveria.

Os vieses que mais atrapalham a ciência

  • Viés de confirmação: procurar, notar e lembrar mais o que confirma o que já pensamos. Num experimento clássico de Peter Wason, pessoas testavam uma regra numérica só com exemplos que a confirmavam, nunca com os que poderiam derrubá-la.
  • Raciocínio motivado: avaliar a evidência conforme a conclusão que desejamos. Somos exigentes com estudos que nos contrariam e generosos com os que nos agradam.
  • Apofenia: ver padrões no acaso, como rostos em nuvens ou “sequências quentes” em jogos de azar.
  • Viés de disponibilidade: julgar a frequência pelo que vem fácil à mente. Acidentes de avião parecem mais comuns que de carro porque são mais noticiados.
  • Efeito do observador: expectativas do pesquisador influenciam o resultado, por exemplo ao classificar dados ambíguos.
  • Excesso de confiança: achar que sabemos mais do que sabemos, inclusive especialistas fora da sua área.

Cada procedimento é uma vacina contra um viés

ProcedimentoContra qual viés
Grupo controleAtribuir ao tratamento o que é melhora natural
SorteioEscolher, sem perceber, os casos favoráveis
Teste cego e duplo-cegoExpectativas de participantes e pesquisadores
Pré-registro do estudoMudar a hipótese depois de ver os dados
Estatística e correção para múltiplas comparaçõesVer padrões no acaso
Revisão por pares e replicaçãoRaciocínio motivado e erros pessoais
Procurar refutaçõesViés de confirmação

O caso de Clever Hans

No começo do século XX, o cavalo Hans, em Berlim, parecia fazer contas: batia o casco o número certo de vezes. O psicólogo Oskar Pfungst descobriu que Hans só acertava quando quem perguntava sabia a resposta e estava à vista: o cavalo lia sinais involuntários de tensão e alívio no rosto das pessoas. O dono não era fraudador; ele próprio se enganava. Daí vem a importância dos testes cegos.

Inteligência não protege

Estudos de Dan Kahan e outros sugerem que, em temas politicamente carregados, pessoas com mais habilidade numérica podem ser mais polarizadas: usam a habilidade para defender o lado do seu grupo. O antídoto não é ser mais inteligente, mas adotar procedimentos e hábitos, como a curiosidade e a busca ativa por contraexemplos.

Veja também: o Política Para Iniciantes tem um catálogo de centenas de vieses, com exemplos e como se proteger de cada um.

Para guardar

  • Todo cérebro procura confirmação e vê padrões no acaso.
  • Cada procedimento do método é uma proteção contra um viés específico.
  • Inteligência pode até aumentar a polarização; o que protege são hábitos e procedimentos.

Para pensar

Qual procedimento do método científico você poderia usar numa decisão pessoal importante?

Erro comum: “Cientistas são pessoas mais racionais, imunes a vieses.” Cientistas têm os mesmos vieses. O que os protege é o método: controles, cegamento, pré-registro e crítica dos pares.
Pratique: Correlação ou causa?. Dez manchetes do tipo “quem faz X tem Y”. Ache a explicação mais provável.
Correntes desta lição: Naturalismo epistemológico.
Nos debates: A ciência é neutra?.
Na BiblioVerse: Biblioteca da Racionalidade, catálogo pesquisável de pensamento crítico, racionalidade e evidências.

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