Em 1992, um grupo de médicos da Universidade McMaster, no Canadá, liderado por Gordon Guyatt e David Sackett, cunhou a expressão medicina baseada em evidências. A ideia parece óbvia, mas não era a prática: muitas decisões médicas se baseavam no costume, na autoridade do professor ou no raciocínio fisiológico sem teste.
Uma analogia
A prática baseada em evidências é como um piloto que usa ao mesmo tempo o GPS (a pesquisa), a própria experiência de estrada (a experiência clínica) e o destino que o passageiro escolheu (os valores do paciente). Ignorar o GPS é arriscado; seguir só o GPS, sem olhar a estrada, também.
Explicando para uma criança
Antes, alguns médicos faziam as coisas porque sempre foi assim. Hoje eles procuram saber o que os testes mostram que funciona de verdade, e perguntam também o que o paciente prefere.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Definir prática baseada em evidências e seus três componentes.
- Dar exemplos de tratamentos plausíveis que se mostraram prejudiciais.
- Aplicar a ideia à educação e às políticas públicas, com suas críticas.
Ajuda ter lido: Níveis de evidência.
Antes de ler: o que você pensa?
Um médico prescreve um suplemento “porque faz sentido fisiologicamente”, embora ensaios não mostrem benefício.
O que a prática baseada em evidências diria?
Ver o que a lição responde
Que plausibilidade não basta: vários tratamentos lógicos fizeram mal quando testados. Sem evidência de benefício, a prescrição precisa de outra justificativa, discutida com o paciente.
A definição
Sackett definiu a medicina baseada em evidências como o uso consciente, explícito e criterioso da melhor evidência disponível para decidir sobre o cuidado de cada paciente. Ela integra três coisas:
- A melhor evidência de pesquisa, de preferência revisões sistemáticas e ensaios bem feitos.
- A experiência clínica do profissional, para aplicar a evidência ao caso concreto.
- Os valores e preferências do paciente, que decide junto.
Não é “seguir o estudo cegamente”. É não ignorar o que os estudos mostram.
Por que foi necessária
A história tem muitos tratamentos que pareciam lógicos e faziam mal. Na década de 1980, remédios antiarrítmicos eram dados a pacientes após infarto porque corrigiam batimentos irregulares no eletrocardiograma. O ensaio CAST, em 1989, mostrou que eles aumentavam a mortalidade. Por décadas, recomendou-se que bebês dormissem de bruços; quando as evidências mostraram que isso aumentava a morte súbita, campanhas para dormir de barriga para cima reduziram muito os casos.
A Cochrane
Em 1993, foi fundada a Colaboração Cochrane (hoje Cochrane), em homenagem ao epidemiologista Archie Cochrane, que criticava a medicina por não organizar suas evidências. A Cochrane produz revisões sistemáticas independentes sobre tratamentos, e tem um centro no Brasil.
Além da medicina
- Educação: que métodos de alfabetização funcionam? O que a pesquisa diz sobre tamanho de turma ou tempo integral?
- Políticas públicas: avaliações de impacto de programas como o Bolsa Família, que estudos associaram à redução da mortalidade infantil.
- Segurança pública: que intervenções reduzem homicídios?
Críticas
- A evidência disponível é enviesada para o que a indústria financia e para o que é fácil de medir.
- Ensaios são feitos com populações selecionadas, que podem não representar o paciente real.
- Pode virar receita de bolo burocrática, ignorando o caso individual.
- Em políticas públicas, valores e contexto pesam muito: a evidência informa, mas não decide sozinha.
O que a PBE não é
- “O paciente prefere, então faço.” As preferências do paciente entram na decisão, mas não a substituem: o profissional deve explicar o que a evidência mostra e não oferecer o que não funciona só porque foi pedido.
- “Tenho autonomia profissional, prescrevo o que quiser.” Autonomia é a liberdade de julgar o caso, não licença para indicar intervenções sem evidência; quem a usa assim transfere o risco ao paciente.
- “Sou baseado em evidências, logo sou cientista.” Usar evidência é consumir ciência; produzir ciência é outra atividade, com outro treino. Um bom clínico baseado em evidências não é, por isso, pesquisador, e vice-versa.
- “O paciente melhorou, então a intervenção funcionou.” Melhora natural, regressão à média, placebo e outros tratamentos simultâneos explicam melhoras sem que a intervenção tenha feito nada; só a comparação controlada separa isso.
- “Um estudo de coorte mostrou que funciona.” Coortes mostram associação em quem escolheu fazer algo; o efeito de uma intervenção se mede em ensaios randomizados (ou em experimentos naturais bem defendidos).
Para guardar
- Evidência de pesquisa + experiência profissional + valores de quem é afetado.
- Tratamentos plausíveis já mataram; só testes com desfechos reais mostram.
- Vale para saúde, educação e políticas públicas, com atenção a vieses e valores.
Para pensar
Que decisão importante na sua área (trabalho, escola, cidade) é tomada só por costume? Como seria avaliá-la?
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