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Iniciante / Como a ciência funciona

Níveis de evidência

Um relato pessoal, um estudo com ratos e uma revisão de cem ensaios clínicos não valem o mesmo. Conheça a pirâmide da evidência.

InicianteEvidências2 min de leitura

“Um estudo mostrou que…” é uma das frases mais enganosas do jornalismo. Que tipo de estudo? Com quantas pessoas? Em humanos ou em ratos? Nem toda evidência vale o mesmo, e conhecer a hierarquia ajuda a não ser enganado.

Uma analogia

A pirâmide da evidência é como a confiabilidade de testemunhas num julgamento. Um boato que alguém ouviu vale pouco; uma testemunha ocular vale mais; uma gravação de câmera vale mais ainda; e várias câmeras independentes mostrando a mesma coisa quase encerram o caso.

Explicando para uma criança

Se um amigo diz que viu um disco voador, é legal, mas pode ter sido um avião. Se cem pessoas filmaram de lugares diferentes e os vídeos batem, aí fica muito mais difícil duvidar.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Ordenar os principais tipos de estudo pela força da evidência.
  • Explicar por que relatos pessoais são evidência fraca.
  • Reconhecer limites da pirâmide e a ideia de certeza da evidência (GRADE).

Ajuda ter lido: Experimentos, grupo controle e placebo.

Antes de ler: o que você pensa?

Uma amiga manda um vídeo de um médico dizendo que um suplemento “tem estudos”.

Que perguntas você faria antes de acreditar?

Ver o que a lição responde

Que tipo de estudo (em células, animais ou humanos), com quantas pessoas, com grupo controle e se outros estudos confirmaram. “Tem estudos” sozinho não diz nada.

A pirâmide da evidência

Na área da saúde, é comum organizar os tipos de estudo numa pirâmide, da evidência mais fraca para a mais forte:

  1. Opinião de especialista e relatos de caso. Úteis para levantar hipóteses, fracos para concluir.
  2. Estudos em laboratório e em animais. Mostram mecanismos possíveis, mas muita coisa que funciona em células ou ratos falha em humanos.
  3. Estudos observacionais (caso-controle e coorte). Comparam pessoas que já têm ou não uma exposição. Bons para detectar associações, sujeitos a fatores de confusão.
  4. Ensaios clínicos randomizados. Sorteiam quem recebe o tratamento. O padrão-ouro para testar intervenções.
  5. Revisões sistemáticas e metanálises. Reúnem todos os bons estudos sobre uma pergunta e combinam os resultados. Ficam no topo, desde que os estudos reunidos sejam bons.

Por que o relato pessoal fica embaixo

“Funcionou comigo” é a forma de evidência mais convincente para nós e uma das menos confiáveis. Uma pessoa não tem grupo controle, não sabe o que teria acontecido sem o tratamento e lembra mais dos acertos do que dos erros. Milhares de relatos também não somam um bom estudo: se forem todos do mesmo tipo, compartilham os mesmos defeitos.

A pirâmide não é tudo

  • Um ensaio randomizado mal feito, pequeno ou financiado sem transparência pode valer menos do que um grande estudo observacional bem feito.
  • Algumas perguntas não admitem ensaio: ninguém vai sortear pessoas para pular de avião sem paraquedas. A evidência de que paraquedas funcionam vem de outro lugar.
  • O sistema GRADE, usado pela OMS e pela Cochrane, avalia a certeza da evidência levando em conta o desenho, a consistência entre estudos, a precisão e o risco de viés.

Fora da saúde

A mesma lógica vale em outras áreas: uma única pesquisa de opinião vale menos do que a média de várias; um único experimento de psicologia vale menos do que vários que o repetiram; um dado isolado vale menos do que uma série histórica.

Na prática: quando ler “estudo prova”, procure três coisas: se foi em humanos, quantas pessoas participaram e se o resultado foi confirmado por outros estudos.

Para guardar

  • Nem toda evidência vale o mesmo: relato, laboratório, observação, ensaio e revisão sistemática formam uma escada.
  • “Funcionou comigo” é convincente para nós e fraco como prova.
  • A qualidade e a consistência dos estudos importam tanto quanto o tipo.

Para pensar

Qual foi a última notícia de saúde que você leu? Em que degrau da pirâmide estava o estudo?

Erro comum: “Tem um estudo que prova.” Um estudo isolado raramente prova algo. O que conta é o tipo de estudo, a qualidade e se o conjunto da evidência aponta na mesma direção.
Pratique: Qual o nível da evidência?. Dez estudos descritos em uma frase. Diga em que degrau da pirâmide cada um está.
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