“Um estudo mostrou que…” é uma das frases mais enganosas do jornalismo. Que tipo de estudo? Com quantas pessoas? Em humanos ou em ratos? Nem toda evidência vale o mesmo, e conhecer a hierarquia ajuda a não ser enganado.
Uma analogia
A pirâmide da evidência é como a confiabilidade de testemunhas num julgamento. Um boato que alguém ouviu vale pouco; uma testemunha ocular vale mais; uma gravação de câmera vale mais ainda; e várias câmeras independentes mostrando a mesma coisa quase encerram o caso.
Explicando para uma criança
Se um amigo diz que viu um disco voador, é legal, mas pode ter sido um avião. Se cem pessoas filmaram de lugares diferentes e os vídeos batem, aí fica muito mais difícil duvidar.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Ordenar os principais tipos de estudo pela força da evidência.
- Explicar por que relatos pessoais são evidência fraca.
- Reconhecer limites da pirâmide e a ideia de certeza da evidência (GRADE).
Ajuda ter lido: Experimentos, grupo controle e placebo.
Antes de ler: o que você pensa?
Uma amiga manda um vídeo de um médico dizendo que um suplemento “tem estudos”.
Que perguntas você faria antes de acreditar?
Ver o que a lição responde
Que tipo de estudo (em células, animais ou humanos), com quantas pessoas, com grupo controle e se outros estudos confirmaram. “Tem estudos” sozinho não diz nada.
A pirâmide da evidência
Na área da saúde, é comum organizar os tipos de estudo numa pirâmide, da evidência mais fraca para a mais forte:
- Opinião de especialista e relatos de caso. Úteis para levantar hipóteses, fracos para concluir.
- Estudos em laboratório e em animais. Mostram mecanismos possíveis, mas muita coisa que funciona em células ou ratos falha em humanos.
- Estudos observacionais (caso-controle e coorte). Comparam pessoas que já têm ou não uma exposição. Bons para detectar associações, sujeitos a fatores de confusão.
- Ensaios clínicos randomizados. Sorteiam quem recebe o tratamento. O padrão-ouro para testar intervenções.
- Revisões sistemáticas e metanálises. Reúnem todos os bons estudos sobre uma pergunta e combinam os resultados. Ficam no topo, desde que os estudos reunidos sejam bons.
Por que o relato pessoal fica embaixo
“Funcionou comigo” é a forma de evidência mais convincente para nós e uma das menos confiáveis. Uma pessoa não tem grupo controle, não sabe o que teria acontecido sem o tratamento e lembra mais dos acertos do que dos erros. Milhares de relatos também não somam um bom estudo: se forem todos do mesmo tipo, compartilham os mesmos defeitos.
A pirâmide não é tudo
- Um ensaio randomizado mal feito, pequeno ou financiado sem transparência pode valer menos do que um grande estudo observacional bem feito.
- Algumas perguntas não admitem ensaio: ninguém vai sortear pessoas para pular de avião sem paraquedas. A evidência de que paraquedas funcionam vem de outro lugar.
- O sistema GRADE, usado pela OMS e pela Cochrane, avalia a certeza da evidência levando em conta o desenho, a consistência entre estudos, a precisão e o risco de viés.
Fora da saúde
A mesma lógica vale em outras áreas: uma única pesquisa de opinião vale menos do que a média de várias; um único experimento de psicologia vale menos do que vários que o repetiram; um dado isolado vale menos do que uma série histórica.
Para guardar
- Nem toda evidência vale o mesmo: relato, laboratório, observação, ensaio e revisão sistemática formam uma escada.
- “Funcionou comigo” é convincente para nós e fraco como prova.
- A qualidade e a consistência dos estudos importam tanto quanto o tipo.
Para pensar
Qual foi a última notícia de saúde que você leu? Em que degrau da pirâmide estava o estudo?
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