Você tomou um chá e o resfriado passou em cinco dias. O chá funcionou? Não dá para saber: resfriados costumam passar sozinhos em uns cinco dias. Para saber se algo funciona, é preciso perguntar em comparação com o quê?
Uma analogia
Testar um remédio sem grupo controle é como dizer que seu guarda-chuva mágico fez a chuva parar. A chuva ia parar de qualquer jeito; para saber se o guarda-chuva fez diferença, você precisaria comparar com dias em que não o abriu.
Explicando para uma criança
Se você quer saber se um adubo faz a plantinha crescer, precisa de duas plantinhas: uma com adubo e outra sem. Se só tiver uma, não dá para saber se ela cresceria igual sem o adubo.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Explicar por que um experimento precisa de grupo controle.
- Descrever o papel do sorteio, do cegamento e do tamanho da amostra.
- Explicar o efeito placebo e por que tratamentos precisam superá-lo.
Ajuda ter lido: O método científico.
Antes de ler: o que você pensa?
Sua avó jura que um xarope caseiro cura gripe: “sempre que tomo, em uma semana estou boa”.
O que esse relato não consegue mostrar?
Ver o que a lição responde
Gripe costuma passar em cerca de uma semana. Sem comparar com quem não tomou o xarope, não dá para saber se ele fez alguma diferença.
O grupo controle
Um experimento compara dois grupos que só diferem numa coisa: o que está sendo testado. Um grupo recebe o tratamento; o outro, o grupo controle, não recebe. Se o primeiro melhora mais, a diferença pode ser atribuída ao tratamento.
Em 1747, o médico escocês James Lind dividiu doze marinheiros com escorbuto em seis duplas e deu a cada dupla um tratamento: sidra, vinagre, água do mar, laranjas e limões, entre outros. Os que comeram cítricos se recuperaram em dias. É um dos primeiros ensaios comparativos registrados.
Três proteções contra o erro
- Sorteio (randomização). Se o médico escolhe quem recebe o remédio, pode, sem perceber, escolher os pacientes menos graves. Sortear distribui as diferenças por acaso entre os grupos.
- Cegamento. Se o paciente sabe que está tomando o remédio, a expectativa já muda como ele se sente. No teste cego, o participante não sabe em que grupo está. No duplo-cego, nem quem aplica e avalia sabe.
- Amostra grande o bastante. Com poucos participantes, o acaso pesa demais. Um resultado com dez pessoas pode sumir quando se testa com mil.
O efeito placebo
Placebo é uma substância ou procedimento sem efeito específico, como uma pílula de açúcar. Pessoas que o recebem muitas vezes relatam melhora, principalmente em sintomas subjetivos como dor e náusea. Parte disso é expectativa; parte é a melhora natural da doença e a regressão à média (quem procura tratamento num dia muito ruim tende a estar melhor depois, de qualquer jeito).
Por isso um novo remédio não precisa só funcionar: precisa funcionar melhor do que o placebo. Muitos tratamentos populares, quando testados assim, não passam desse teste.
Quando não dá para fazer experimento
Não se pode sortear pessoas para fumar por trinta anos. Nesses casos, a ciência usa estudos observacionais: acompanha quem já fuma e quem não fuma e compara, tentando controlar outras diferenças (idade, renda, profissão). São mais sujeitos a erro, mas, quando muitos estudos diferentes apontam na mesma direção, como no caso do tabaco e do câncer de pulmão, a conclusão fica muito sólida.
Para guardar
- Sem grupo controle não há como saber se o tratamento fez diferença.
- Sorteio, cegamento e amostras grandes protegem o resultado dos nossos vieses.
- Um tratamento precisa funcionar melhor do que o placebo, não só “funcionar”.
Para pensar
Que produto ou tratamento você já usou porque “funcionou comigo”? Como saberia se ele funcionou mesmo?
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