O que é preciso para dizer “eu sei”? No diálogo Teeteto, Platão discute uma resposta que virou clássica: conhecimento é crença verdadeira justificada. São três condições, e cada uma tem um papel.
Uma analogia
Conhecimento é como chegar a um destino. Acreditar é querer ir, a verdade é o lugar existir de fato, e a justificação é ter seguido um mapa confiável. Quem chegou dirigindo de olhos fechados também chegou, mas ninguém diria que sabia o caminho.
Explicando para uma criança
Se você adivinha quantas balas tem no pote e acerta, foi sorte. Se você contou uma por uma, você sabe. Saber é acertar porque você tem um bom motivo.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Enunciar as três condições da análise clássica do conhecimento.
- Explicar por que a justificação separa conhecimento de palpite certeiro.
- Descrever em linhas gerais o problema de Gettier.
Ajuda ter lido: Opinião, crença e conhecimento.
Antes de ler: o que você pensa?
Uma amiga diz que “sabia” que o time ia ganhar, porque sonhou com o placar, e o placar se confirmou.
Ela sabia ou acertou?
Ver o que a lição responde
Ela acreditou e acertou, mas um sonho não é boa razão. Faltou justificação: foi palpite certeiro, não conhecimento.
As três condições
- Crença. Você precisa acreditar. Não dá para saber que a reunião é às 15h se você acha que é às 16h.
- Verdade. O que você acredita precisa ser o caso. Ninguém “sabia” que a Terra era o centro do universo; as pessoas acreditavam, e estavam erradas.
- Justificação. Você precisa ter boas razões. Quem aposta no número 17 da roleta e acerta não sabia que ia dar 17; teve sorte.
A terceira condição é a mais interessante para a ciência. Justificação é o que separa conhecimento de palpite certeiro. E é exatamente o que o método científico tenta produzir: boas razões para acreditar.
O que conta como justificação?
- Percepção: vi com os próprios olhos, em boas condições.
- Raciocínio: deduzi de premissas verdadeiras.
- Memória: lembro bem, e minha memória costuma ser confiável nisso.
- Testemunho: uma fonte confiável me disse. A maior parte do que sabemos sobre ciência vem daqui: ninguém refaz todos os experimentos da física.
- Evidência acumulada: muitos testes independentes apontam na mesma direção.
Cada fonte pode falhar. Olhos se enganam, memórias se distorcem, testemunhas mentem. Por isso a ciência combina várias fontes e prefere as que podem ser conferidas por outras pessoas.
O problema de Gettier
Em 1963, o filósofo Edmund Gettier publicou um artigo de três páginas mostrando casos em que alguém tem uma crença verdadeira e justificada, mas parece não saber. Exemplo: você olha para um relógio parado que, por acaso, marca a hora certa. Sua crença é verdadeira e justificada (relógios costumam funcionar), mas acertou por sorte. O debate sobre o que falta continua até hoje, e há uma lição no nível Intermediário sobre ele.
Para guardar
- Conhecimento clássico = crença + verdade + justificação.
- A justificação é o que separa saber de acertar por sorte; produzi-la é o trabalho da ciência.
- Gettier mostrou que talvez as três condições não bastem, e o debate segue aberto.
Para pensar
Escolha algo que você diz saber sobre ciência. De onde vem a sua justificação: percepção, raciocínio, memória ou testemunho?
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