“Como uma pesquisa com duas mil pessoas pode dizer o que pensam duzentos milhões?” A pergunta é razoável, e a resposta é uma das ideias mais bonitas da estatística: se a amostra for bem escolhida, o tamanho da população quase não importa.
Uma analogia
Uma pesquisa é como provar a sopa com uma colher. Mexida a panela, uma colher basta; sem mexer, nem um prato inteiro tirado da superfície diz como está o fundo.
Explicando para uma criança
Para saber qual sabor de sorvete a escola toda prefere, você pode perguntar a algumas crianças escolhidas por sorteio. Se só perguntar aos seus amigos, vai dar errado, porque eles podem gostar das mesmas coisas que você.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Explicar por que uma amostra pequena e aleatória representa uma população grande.
- Interpretar a margem de erro e saber o que ela não cobre.
- Listar as causas de erro em pesquisas e aplicar um roteiro de leitura.
Ajuda ter lido: Estatística para entender ciência.
Antes de ler: o que você pensa?
Um jornal diz que o candidato A “ultrapassou” B porque passou de 31% para 33%, com margem de erro de 3 pontos.
A manchete se sustenta?
Ver o que a lição responde
Não: a variação está dentro da margem de erro. Pode ser só ruído da amostra.
A sopa e a colher
Para saber se a sopa está salgada, você não precisa tomar a panela inteira: basta uma colher, desde que a sopa esteja bem mexida. A amostra é a colher; mexer a sopa é garantir que cada pessoa tenha chance parecida de ser escolhida. Uma colher tirada só da superfície, onde o sal não chegou, engana, por maior que seja.
Margem de erro
Com uma amostra aleatória de cerca de mil pessoas, a margem de erro fica perto de 3 pontos percentuais, com 95% de confiança. Isso quer dizer: se a pesquisa fosse repetida muitas vezes, em 95% delas o resultado ficaria a até 3 pontos do valor real. Quatro coisas que a margem de erro não cobre:
- Erros de amostragem (a “colher” mal tirada).
- Pessoas que recusam responder, se forem diferentes das que respondem.
- Perguntas mal feitas ou tendenciosas.
- Mudança de opinião entre a pesquisa e a eleição.
Por isso, dois candidatos “empatados dentro da margem” podem não estar empatados, e uma diferença de 1 ponto entre duas pesquisas não é notícia.
Por que pesquisas erram
- Amostra enviesada: em 1936, a revista Literary Digest ouviu mais de dois milhões de pessoas, por listas de telefone e de donos de carro, e previu a derrota de Roosevelt. Ele venceu com folga: na Depressão, quem tinha telefone e carro não representava o eleitorado. George Gallup acertou com uma amostra muito menor e melhor.
- Não resposta: se eleitores de um candidato atendem menos ao telefone ou desconfiam mais de institutos, a pesquisa os subestima. Foi parte do erro das pesquisas americanas em 2016 e 2020.
- Como se pergunta: a ordem das perguntas, as palavras (“ajuda aos pobres” ou “assistencialismo”) e as opções oferecidas mudam as respostas.
- Indecisos e votos que mudam: a pesquisa é uma foto, não uma previsão.
Como ler uma pesquisa
- Quem fez e quem pagou?
- Como as pessoas foram escolhidas: sorteio, cotas, internet, voluntários?
- Quantas responderam, e qual a margem de erro?
- Qual era a pergunta exata?
- Como ela se compara com outras pesquisas e com a média delas?
Pesquisas de internet em que qualquer pessoa pode votar (“enquetes”) não são pesquisas de opinião: quem responde se escolheu, e isso vale para qualquer número de respostas.
Para guardar
- Amostra bem sorteada vale mais do que amostra grande.
- Margem de erro cobre só o acaso; viés de amostra e não resposta ficam de fora.
- Pergunte quem fez, como escolheu, quantos, qual a pergunta e como se compara com as outras.
Para pensar
Que pesquisa você viu recentemente sem saber como as pessoas foram escolhidas?
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