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Como funcionam as pesquisas de opinião

Como mil pessoas podem representar duzentos milhões, o que a margem de erro diz e não diz, e por que pesquisas erram: amostragem, não resposta e o efeito de como se pergunta.

InicianteEstatísticaCiência e sociedade3 min de leitura

“Como uma pesquisa com duas mil pessoas pode dizer o que pensam duzentos milhões?” A pergunta é razoável, e a resposta é uma das ideias mais bonitas da estatística: se a amostra for bem escolhida, o tamanho da população quase não importa.

Uma analogia

Uma pesquisa é como provar a sopa com uma colher. Mexida a panela, uma colher basta; sem mexer, nem um prato inteiro tirado da superfície diz como está o fundo.

Explicando para uma criança

Para saber qual sabor de sorvete a escola toda prefere, você pode perguntar a algumas crianças escolhidas por sorteio. Se só perguntar aos seus amigos, vai dar errado, porque eles podem gostar das mesmas coisas que você.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Explicar por que uma amostra pequena e aleatória representa uma população grande.
  • Interpretar a margem de erro e saber o que ela não cobre.
  • Listar as causas de erro em pesquisas e aplicar um roteiro de leitura.

Ajuda ter lido: Estatística para entender ciência.

Antes de ler: o que você pensa?

Um jornal diz que o candidato A “ultrapassou” B porque passou de 31% para 33%, com margem de erro de 3 pontos.

A manchete se sustenta?

Ver o que a lição responde

Não: a variação está dentro da margem de erro. Pode ser só ruído da amostra.

A sopa e a colher

Para saber se a sopa está salgada, você não precisa tomar a panela inteira: basta uma colher, desde que a sopa esteja bem mexida. A amostra é a colher; mexer a sopa é garantir que cada pessoa tenha chance parecida de ser escolhida. Uma colher tirada só da superfície, onde o sal não chegou, engana, por maior que seja.

Margem de erro

Com uma amostra aleatória de cerca de mil pessoas, a margem de erro fica perto de 3 pontos percentuais, com 95% de confiança. Isso quer dizer: se a pesquisa fosse repetida muitas vezes, em 95% delas o resultado ficaria a até 3 pontos do valor real. Quatro coisas que a margem de erro não cobre:

  • Erros de amostragem (a “colher” mal tirada).
  • Pessoas que recusam responder, se forem diferentes das que respondem.
  • Perguntas mal feitas ou tendenciosas.
  • Mudança de opinião entre a pesquisa e a eleição.

Por isso, dois candidatos “empatados dentro da margem” podem não estar empatados, e uma diferença de 1 ponto entre duas pesquisas não é notícia.

Por que pesquisas erram

  • Amostra enviesada: em 1936, a revista Literary Digest ouviu mais de dois milhões de pessoas, por listas de telefone e de donos de carro, e previu a derrota de Roosevelt. Ele venceu com folga: na Depressão, quem tinha telefone e carro não representava o eleitorado. George Gallup acertou com uma amostra muito menor e melhor.
  • Não resposta: se eleitores de um candidato atendem menos ao telefone ou desconfiam mais de institutos, a pesquisa os subestima. Foi parte do erro das pesquisas americanas em 2016 e 2020.
  • Como se pergunta: a ordem das perguntas, as palavras (“ajuda aos pobres” ou “assistencialismo”) e as opções oferecidas mudam as respostas.
  • Indecisos e votos que mudam: a pesquisa é uma foto, não uma previsão.

Como ler uma pesquisa

  1. Quem fez e quem pagou?
  2. Como as pessoas foram escolhidas: sorteio, cotas, internet, voluntários?
  3. Quantas responderam, e qual a margem de erro?
  4. Qual era a pergunta exata?
  5. Como ela se compara com outras pesquisas e com a média delas?

Pesquisas de internet em que qualquer pessoa pode votar (“enquetes”) não são pesquisas de opinião: quem responde se escolheu, e isso vale para qualquer número de respostas.

No Brasil: pesquisas eleitorais precisam ser registradas na Justiça Eleitoral, com metodologia e contratante públicos. Agregadores que fazem a média de várias pesquisas reduzem o ruído de cada uma. O Política Para Iniciantes tem uma lição só sobre como ler uma pesquisa eleitoral.

Para guardar

  • Amostra bem sorteada vale mais do que amostra grande.
  • Margem de erro cobre só o acaso; viés de amostra e não resposta ficam de fora.
  • Pergunte quem fez, como escolheu, quantos, qual a pergunta e como se compara com as outras.

Para pensar

Que pesquisa você viu recentemente sem saber como as pessoas foram escolhidas?

Erro comum: “Quanto mais gente responde, mais certa é a pesquisa.” Uma amostra enviesada não melhora com tamanho. Dois milhões de respostas erraram em 1936; mil bem sorteadas acertaram.
Pratique: Qual o nível da evidência?. Dez estudos descritos em uma frase. Diga em que degrau da pirâmide cada um está.
Na BiblioVerse: Biblioteca de Dados, catálogo pesquisável das melhores fontes de dados e estatísticas.

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