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Iniciante / Como a ciência funciona

Correlação não é causalidade

Duas coisas andarem juntas não quer dizer que uma causa a outra. Conheça o terceiro fator, a causalidade reversa e a coincidência.

InicianteEvidênciasEstatística2 min de leitura

Nos meses em que se vende mais sorvete, também há mais afogamentos. O sorvete causa afogamentos? Não: o calor faz as pessoas tomarem mais sorvete e também irem mais à praia. Essa é a lição mais útil da estatística: correlação não é causalidade.

Uma analogia

Ver dois fenômenos juntos é como ver duas pessoas sempre chegando ao trabalho no mesmo ônibus. Uma não faz a outra chegar: as duas pegam o mesmo ônibus. Antes de concluir que uma causa a outra, procure o ônibus.

Explicando para uma criança

Quando chove, muita gente abre o guarda-chuva. Mas abrir guarda-chuvas não faz chover! Às vezes duas coisas acontecem juntas, mas uma não causa a outra.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Distinguir correlação de causalidade.
  • Identificar causalidade reversa, fatores de confusão e coincidência.
  • Citar critérios que tornam uma inferência causal mais forte.

Ajuda ter lido: Experimentos, grupo controle e placebo.

Antes de ler: o que você pensa?

Uma reportagem diz que crianças que tomam café da manhã tiram notas melhores, e conclui que o café da manhã melhora o aprendizado.

Que outras explicações você testaria?

Ver o que a lição responde

Famílias com mais tempo e renda podem oferecer café da manhã e também mais apoio escolar. Para saber se o café da manhã causa a melhora, seria preciso um experimento ou controlar esses fatores.

O que é correlação

Duas coisas são correlacionadas quando variam juntas: quando uma sobe, a outra tende a subir (correlação positiva) ou a descer (negativa). Correlação é um padrão nos dados. Causalidade é uma afirmação sobre o mundo: mexer em A muda B.

Quatro explicações para uma correlação

  1. A causa B. Fumar causa câncer de pulmão. Às vezes a explicação óbvia é a certa.
  2. B causa A (causalidade reversa). Pessoas que vão mais ao médico estão mais doentes. Ir ao médico não adoece: estar doente leva ao médico.
  3. Um terceiro fator causa as duas (confusão). O calor, no caso do sorvete. Cidades com mais bombeiros têm mais incêndios porque cidades grandes têm mais dos dois.
  4. Coincidência. Com dados suficientes, alguma coisa sempre vai se correlacionar com outra por acaso. O site Spurious Correlations mostra, por exemplo, séries que acompanham o consumo de queijo e mortes por enroscar-se no lençol.

Como a ciência chega à causalidade

  • Experimentos com sorteio: se A é distribuído por sorteio, terceiros fatores ficam equilibrados entre os grupos.
  • Ordem no tempo: a causa precisa vir antes do efeito.
  • Dose-resposta: mais exposição, mais efeito (quem fuma mais tem mais risco).
  • Mecanismo plausível: saber como A poderia produzir B.
  • Consistência: o mesmo resultado em populações e métodos diferentes.

Esses critérios lembram os propostos pelo epidemiologista Austin Bradford Hill em 1965, usados para concluir que o tabaco causa câncer mesmo sem experimentos em humanos.

Cuidado com o outro extremo

“Correlação não é causalidade” não quer dizer que correlação não significa nada. Ela é um indício que merece investigação. Usar a frase para descartar qualquer estudo observacional incômodo, como fez a indústria do tabaco por décadas, é outro erro.

Pergunta-chave: diante de “quem faz X tem mais Y”, pergunte: e se for Y que leva a X? Que terceira coisa poderia causar as duas?

Para guardar

  • Andar junto não é causar.
  • Pergunte sempre por causalidade reversa, por um terceiro fator e por coincidência.
  • Correlação é indício a investigar, não algo a descartar.

Para pensar

Que “quem faz X tem Y” você ouviu recentemente? Qual terceiro fator poderia explicar os dois?

Erro comum: “Correlação não é causalidade, então esse estudo não vale nada.” Correlação é um indício importante. Com dose-resposta, mecanismo e consistência, estudos observacionais podem sustentar conclusões causais, como no caso do tabaco.
Pratique: Correlação ou causa?. Dez manchetes do tipo “quem faz X tem Y”. Ache a explicação mais provável.
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