Debates / O que é ciência
Existe conhecimento que não é científico?
Matemática, saber fazer, testemunho, história, autoconhecimento e ética: tipos de conhecimento que não saem de um laboratório. O cientificismo diz que só a ciência conhece de verdade; a maioria dos filósofos discorda, sem abrir a porta para qualquer crença.
Se a ciência é o método mais confiável que temos para saber como o mundo é, segue-se que todo conhecimento genuíno é científico? A pergunta divide cientificistas e a maioria dos epistemólogos, e a resposta importa: dela depende o lugar da matemática, da história, da ética e da experiência prática, e também a desculpa que pseudociências usam para escapar do teste.
Antes de ler: para que lado você pende?
Os lados
Sim, há conhecimento não científico
- Matemática e lógica: sabemos que não há maior número primo por demonstração, não por experimento. É o conhecimento mais seguro que temos e não é empírico.
- Saber fazer (know-how): o ciclista sabe andar de bicicleta, o cozinheiro sabe o ponto do caramelo, o médico experiente reconhece um caso grave antes dos exames. Gilbert Ryle distinguiu saber-que de saber-como; o segundo não se reduz a proposições testadas.
- Testemunho e memória: você sabe o próprio nome, onde nasceu e que Napoleão existiu sem nenhum experimento; quase tudo o que cada pessoa sabe veio de outros, inclusive o que sabe de ciência.
- História, direito e jornalismo: reconstroem fatos singulares com crítica de fontes e padrões públicos de evidência, sem leis gerais nem experimentos repetíveis. Que César cruzou o Rubicão é conhecimento.
- Autoconhecimento e experiência: você sabe que está com dor sem instrumento; a ciência mede correlatos, mas o acesso em primeira pessoa é outro tipo de saber.
- Conhecimento moral e conceitual: que a crueldade gratuita é errada, que um argumento é inválido, que uma palavra está sendo usada em dois sentidos; filosofia e ética têm padrões de rigor próprios.
- O próprio argumento cientificista é filosófico: “só a ciência produz conhecimento” não é um resultado de nenhum experimento, e se fosse verdadeiro não poderia ser conhecido.
Não, no sentido que importa
- Versão forte (Alex Rosenberg e outros): o que chamamos de conhecimento fora da ciência ou é ciência informal (testemunho confiável é evidência; história usa método empírico) ou é hábito e opinião que a ciência explica, não conhecimento.
- Onde conhecimento não científico contradiz a ciência, a ciência vence: intuição, tradição e experiência pessoal erraram sobre o movimento da Terra, sobre a origem das doenças e sobre o que funciona em medicina.
- Admitir “outros modos de saber” sem critério é a porta por onde entram a astrologia e a cura quântica: cada uma se declara um conhecimento de outro tipo, imune ao teste.
- A matemática pode ser vista como ferramenta da ciência, e o saber-como, como habilidade, não como conhecimento sobre o mundo.
Posições gerais. Muita gente concorda em parte com cada lado.
O que as correntes tendem a dizer
| Cientificismo | Sustenta a versão forte: fora da ciência há crença, não conhecimento. |
|---|---|
| Naturalismo epistemológico | Diria que a epistemologia é contínua com a ciência, o que não implica que só a ciência conheça: matemática, lógica e testemunho são estudados por ela como fontes legítimas. |
| Empirismo | Aceita o conhecimento formal (relações de ideias) ao lado do empírico (questões de fato), nas palavras de Hume. |
| Pragmatismo | Mede o conhecimento pela investigação bem conduzida e pelas consequências práticas, seja no laboratório, na oficina ou no tribunal. |
| Relativismo epistêmico | Vai ao extremo oposto: trata qualquer sistema de crenças como conhecimento válido em seus próprios termos, posição que a maioria rejeita. |
Por que é complexo
- Depende do que se chama de ciência: no sentido amplo de Hansson (a prática que dá as afirmações mais confiáveis sobre um objeto), história e matemática entram; no sentido estrito de teste empírico de hipóteses gerais, não.
- Há diferença entre “existe conhecimento não científico” e “qualquer crença é conhecimento”: a primeira é quase consensual; a segunda, relativismo.
- Onde um saber não científico faz afirmações empíricas (um remédio cura, um ritual traz chuva), ele entra no território da ciência e pode ser testado por ela; a experiência do agricultor sobre o solo é conhecimento até o ponto em que contradiz o que a agronomia mediu.
- O conhecimento tácito e o testemunho são também a base da ciência: nenhum cientista refaz todos os experimentos nem consegue escrever tudo o que sabe fazer no laboratório.
Para onde a evidência aponta
Existe conhecimento que não é científico: a matemática e a lógica, o saber fazer, o testemunho, a história e o conhecimento moral e conceitual têm padrões próprios de justificação, e o próprio cientificismo forte é uma tese filosófica, não científica. Isso não enfraquece a ciência: para afirmações sobre como o mundo funciona, ela continua o método mais confiável, e nenhum “outro modo de saber” escapa do teste quando faz esse tipo de afirmação. Não científico não quer dizer sem critério.
Avaliação do site, sujeita a críticas. Evidências e argumentos novos podem mudá-la.
E agora, depois de ler?
Perguntas para pensar
- Qual parte da discussão é sobre fatos, e qual é sobre valores?
- Que evidência faria cada lado mudar de ideia?
- Quem ganha e quem perde com cada resposta?
- O que me faria mudar de ideia?
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