Se a ciência é tão bem-sucedida, por que não usá-la para responder a todas as perguntas? A tese de que só a ciência produz conhecimento genuíno, ou de que tudo o que vale saber pode ser resolvido por ela, tem nome: cientificismo. Há versões fortes e fracas, e muita confusão no uso da palavra.
Uma analogia
A ciência é como uma lanterna muito potente. Ela ilumina melhor do que qualquer outra o que está no caminho; mas não diz para onde você quer ir. E apontar para o escuro e dizer “a lanterna não alcança lá, então ali tem um dragão” também não vale.
Explicando para uma criança
A ciência é ótima para descobrir como as coisas funcionam, como o corpo e as estrelas. Mas para decidir o que é justo, ou o que é certo fazer, a gente precisa também pensar em outras coisas, como os sentimentos e a vida dos outros.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Distinguir os dois sentidos de cientificismo.
- Identificar limites internos e externos da ciência.
- Evitar os dois erros: cientificismo ingênuo e anticientificismo.
Ajuda ter lido: Ciência, religião e filosofia, Naturalismo e epistemologia naturalizada.
Antes de ler: o que você pensa?
Num debate sobre consumo de carne, alguém diz: “a ciência mostra que humanos são onívoros, então comer carne é certo”.
O que está misturado nessa frase?
Ver o que a lição responde
Um fato (anatomia e história alimentar) e uma conclusão de valor (é certo). Do fato não se segue a norma; a ética precisa considerar outros fatos, como a senciência dos animais, e argumentos morais.
Dois sentidos de “cientificismo”
- Como posição filosófica: a ciência é a única (ou a melhor) fonte de conhecimento. Alguns filósofos naturalistas defendem versões disso, e pensadores como Alex Rosenberg assumem o rótulo.
- Como acusação: uso indevido da autoridade científica fora do seu domínio, como dizer que neurociência resolve questões morais, ou apresentar opiniões políticas como “o que a ciência diz”.
Limites internos
- Incerteza e falibilidade: todo conhecimento empírico é revisável (o problema da indução).
- Subdeterminação: às vezes os dados não decidem entre teorias.
- Limites práticos: sistemas caóticos, como o tempo atmosférico, são imprevisíveis no longo prazo mesmo com leis conhecidas.
- Limites formais: os teoremas de incompletude de Gödel mostram que sistemas matemáticos suficientemente ricos têm verdades que não podem provar.
Limites externos: o que a ciência não responde sozinha
- Valores e normas: a ciência diz o que acontece se fizermos X, mas não se devemos fazer X. Hume chamou isso de distância entre o “é” e o “deve”. Saber que animais sentem dor é ciência; decidir que isso nos obriga a algo é ética, embora a ética deva levar os fatos a sério.
- Pressupostos da própria ciência: que a natureza é regular, que a lógica é válida, que devemos buscar a verdade. A ciência os usa, não os prova.
- Significado e experiência: a física da luz não diz como é ver vermelho (o “problema difícil da consciência”, de David Chalmers, é tema de muito debate).
- Matemática e lógica: são conhecimento, mas não empírico.
Os dois erros
Há dois erros simétricos. O cientificismo ingênuo trata a ciência como resposta para tudo e descarta a filosofia e a ética. O anticientificismo usa os limites da ciência para justificar crenças sem evidência em temas em que a ciência é competente (“a ciência não sabe tudo, então minha terapia pode funcionar”).
A posição equilibrada: a ciência é o método mais confiável para questões sobre o mundo natural, e onde ela é competente, sua palavra deve pesar muito. Em questões de valor, ela informa, mas não decide sozinha. E a filosofia ajuda a traçar onde está cada fronteira.
Para guardar
- Cientificismo: tese de que só a ciência conhece, ou uso indevido da autoridade científica.
- Limites internos (falibilidade, caos, Gödel) e externos (valores, pressupostos, consciência).
- Evite os dois erros: ciência para tudo e “a ciência não sabe tudo, então qualquer coisa vale”.
Para pensar
Qual debate público você vê sendo apresentado como “questão científica” quando, no fundo, é sobre valores?
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