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Avançado / Ciência e sociedade

Cientificismo e os limites da ciência

A ciência é o melhor método para conhecer o mundo natural, mas responde a tudo? O que é cientificismo, os limites internos e externos da ciência e o lugar da ética.

AvançadoFilosofia da ciênciaFundamentos3 min de leitura

Se a ciência é tão bem-sucedida, por que não usá-la para responder a todas as perguntas? A tese de que só a ciência produz conhecimento genuíno, ou de que tudo o que vale saber pode ser resolvido por ela, tem nome: cientificismo. Há versões fortes e fracas, e muita confusão no uso da palavra.

Uma analogia

A ciência é como uma lanterna muito potente. Ela ilumina melhor do que qualquer outra o que está no caminho; mas não diz para onde você quer ir. E apontar para o escuro e dizer “a lanterna não alcança lá, então ali tem um dragão” também não vale.

Explicando para uma criança

A ciência é ótima para descobrir como as coisas funcionam, como o corpo e as estrelas. Mas para decidir o que é justo, ou o que é certo fazer, a gente precisa também pensar em outras coisas, como os sentimentos e a vida dos outros.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Distinguir os dois sentidos de cientificismo.
  • Identificar limites internos e externos da ciência.
  • Evitar os dois erros: cientificismo ingênuo e anticientificismo.

Ajuda ter lido: Ciência, religião e filosofia, Naturalismo e epistemologia naturalizada.

Antes de ler: o que você pensa?

Num debate sobre consumo de carne, alguém diz: “a ciência mostra que humanos são onívoros, então comer carne é certo”.

O que está misturado nessa frase?

Ver o que a lição responde

Um fato (anatomia e história alimentar) e uma conclusão de valor (é certo). Do fato não se segue a norma; a ética precisa considerar outros fatos, como a senciência dos animais, e argumentos morais.

Dois sentidos de “cientificismo”

  • Como posição filosófica: a ciência é a única (ou a melhor) fonte de conhecimento. Alguns filósofos naturalistas defendem versões disso, e pensadores como Alex Rosenberg assumem o rótulo.
  • Como acusação: uso indevido da autoridade científica fora do seu domínio, como dizer que neurociência resolve questões morais, ou apresentar opiniões políticas como “o que a ciência diz”.

Limites internos

  • Incerteza e falibilidade: todo conhecimento empírico é revisável (o problema da indução).
  • Subdeterminação: às vezes os dados não decidem entre teorias.
  • Limites práticos: sistemas caóticos, como o tempo atmosférico, são imprevisíveis no longo prazo mesmo com leis conhecidas.
  • Limites formais: os teoremas de incompletude de Gödel mostram que sistemas matemáticos suficientemente ricos têm verdades que não podem provar.

Limites externos: o que a ciência não responde sozinha

  • Valores e normas: a ciência diz o que acontece se fizermos X, mas não se devemos fazer X. Hume chamou isso de distância entre o “é” e o “deve”. Saber que animais sentem dor é ciência; decidir que isso nos obriga a algo é ética, embora a ética deva levar os fatos a sério.
  • Pressupostos da própria ciência: que a natureza é regular, que a lógica é válida, que devemos buscar a verdade. A ciência os usa, não os prova.
  • Significado e experiência: a física da luz não diz como é ver vermelho (o “problema difícil da consciência”, de David Chalmers, é tema de muito debate).
  • Matemática e lógica: são conhecimento, mas não empírico.

Os dois erros

Há dois erros simétricos. O cientificismo ingênuo trata a ciência como resposta para tudo e descarta a filosofia e a ética. O anticientificismo usa os limites da ciência para justificar crenças sem evidência em temas em que a ciência é competente (“a ciência não sabe tudo, então minha terapia pode funcionar”).

A posição equilibrada: a ciência é o método mais confiável para questões sobre o mundo natural, e onde ela é competente, sua palavra deve pesar muito. Em questões de valor, ela informa, mas não decide sozinha. E a filosofia ajuda a traçar onde está cada fronteira.

Ponte para a ética: boa parte dos debates públicos mistura fatos (que a ciência pode esclarecer) e valores (que a ética discute). O Ética Para Iniciantes trata da outra metade.

Para guardar

  • Cientificismo: tese de que só a ciência conhece, ou uso indevido da autoridade científica.
  • Limites internos (falibilidade, caos, Gödel) e externos (valores, pressupostos, consciência).
  • Evite os dois erros: ciência para tudo e “a ciência não sabe tudo, então qualquer coisa vale”.

Para pensar

Qual debate público você vê sendo apresentado como “questão científica” quando, no fundo, é sobre valores?

Erro comum: “Se a ciência não responde a algo, qualquer resposta vale.” Os limites da ciência não abrem espaço para crenças sem evidência em temas que ela pode testar. E nas questões de valor, há também argumentos melhores e piores.
Correntes desta lição: Relativismo epistêmico, Cientificismo.

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