Toda pergunta tem resposta que podemos encontrar? Ou há coisas que, por princípio, nunca poderemos saber? A pergunta pelo incognoscível atravessa a história da filosofia e ganhou, no século XX, respostas surpreendentemente precisas.
Uma analogia
O conhecimento humano é como a luz de uma lanterna numa caverna enorme. Durante séculos, alguns disseram “aquela parede nunca será iluminada”, e a lanterna melhorou e a iluminou. Mas também descobrimos que certas regiões, por causa da forma da própria caverna, nenhuma lanterna alcança.
Explicando para uma criança
Será que existem coisas que ninguém nunca vai conseguir descobrir? Às vezes as pessoas disseram que sim e depois alguém descobriu. Mas os matemáticos provaram que algumas coisas nem os computadores mais poderosos conseguem resolver.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Reconstruir a disputa entre o “ignorabimus” e o “saberemos”.
- Distinguir limites demonstrados (Gödel, Turing, incerteza, caos, horizonte) de limites supostos.
- Tirar lições sobre humildade e sobre o uso indevido da ideia de incognoscível.
Ajuda ter lido: Cientificismo e os limites da ciência, A ciência da consciência.
Antes de ler: o que você pensa?
Um palestrante diz que “a física quântica provou que nada pode ser conhecido com certeza, então qualquer crença é válida”.
O que está errado?
Ver o que a lição responde
O princípio da incerteza limita a medida simultânea de certas grandezas; não diz nada sobre crenças em geral. E limites ao conhecimento não validam nenhuma crença específica.
A disputa histórica
- Kant: conhecemos as coisas como nos aparecem (fenômenos), não como são em si mesmas (o númeno).
- Comte afirmou que nunca saberíamos a composição química das estrelas. Pouco depois, a espectroscopia a revelou, analisando a luz delas.
- Emil du Bois-Reymond, fisiologista alemão, declarou em 1872 e 1880 que certas questões, como a natureza da matéria e a origem da consciência, eram para sempre inacessíveis: ignoramus et ignorabimus (“não sabemos e não saberemos”).
- David Hilbert respondeu em 1930, num discurso famoso: “precisamos saber, e saberemos”. No dia anterior, no mesmo congresso, o jovem Kurt Gödel havia anunciado o resultado que mostrava um limite ao programa de Hilbert.
Limites demonstrados
- Incompletude de Gödel (1931): qualquer sistema matemático consistente, capaz de expressar a aritmética, contém afirmações verdadeiras que não podem ser provadas dentro dele.
- Problema da parada de Turing (1936): não existe um programa que decida, para qualquer programa, se ele vai parar ou rodar para sempre.
- Princípio da incerteza de Heisenberg: não é possível conhecer com precisão arbitrária, ao mesmo tempo, a posição e o momento de uma partícula.
- Caos: em sistemas caóticos, como o tempo atmosférico, pequenas incertezas crescem tão rápido que a previsão de longo prazo é impossível na prática.
- Horizonte cósmico: a luz de regiões muito distantes do universo nunca chegará até nós; há partes do universo que não podemos observar.
Limites supostos
- Misterianismo (Colin McGinn): talvez a mente humana não tenha os conceitos necessários para entender a consciência, como um cão não pode entender cálculo.
- Ceticismo radical: nunca poderíamos excluir que estamos sonhando ou numa simulação.
- Paradoxo de Fitch: um argumento lógico mostra que, se toda verdade pudesse ser conhecida, toda verdade já seria conhecida. Como nem tudo é conhecido, haveria verdades incognoscíveis.
Lições
- Humildade dupla: a história está cheia de previsões erradas de que algo jamais seria conhecido (Comte, as estrelas). Mas também há limites rigorosamente demonstrados.
- Saber os limites é saber algo: os teoremas de Gödel e Turing são conhecimento sobre o conhecimento, e fundaram a ciência da computação.
- Limites não são licença: que algumas coisas sejam incognoscíveis não torna verdadeira nenhuma resposta específica a elas.
Para guardar
- O ignorabimus de Du Bois-Reymond contra o “saberemos” de Hilbert.
- Gödel, Turing, incerteza, caos e horizonte cósmico são limites demonstrados.
- Previsões de incognoscibilidade já falharam; limites não validam respostas específicas.
Para pensar
Há alguma pergunta que você acha que a humanidade nunca vai responder? Por quê?
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