Sabemos muito sobre como o cérebro processa informação. Mas por que esse processamento é acompanhado de experiência, de “como é” ver vermelho ou sentir dor? Esse é o problema difícil da consciência, nome dado pelo filósofo David Chalmers em 1995.
Uma analogia
Explicar o cérebro sem explicar a experiência é como descrever cada pixel e cada circuito de uma TV sem dizer por que alguém está assistindo a um filme. O problema difícil pergunta pelo espectador.
Explicando para uma criança
Quando você sente o gosto de chocolate, tem uma sensação lá dentro. Os cientistas sabem muito sobre o cérebro, mas ainda tentam entender como essas sensações acontecem, e quais animais também as têm.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Explicar a diferença entre os problemas fáceis e o problema difícil.
- Descrever as principais teorias científicas da consciência.
- Resumir o que a ciência diz sobre a consciência animal e artificial.
Ajuda ter lido: Reducionismo e emergência, Cientificismo e os limites da ciência.
Antes de ler: o que você pensa?
Alguém diz que peixes e camarões não sentem dor porque “não têm cérebro como o nosso”.
O que a ciência atual diz?
Ver o que a lição responde
A Declaração de Nova York (2024) considera realista a possibilidade de consciência em todos os vertebrados, inclusive peixes, e em crustáceos. Estruturas diferentes podem realizar funções parecidas.
Problemas fáceis e o problema difícil
Os “problemas fáceis” (que não são nada fáceis) são explicar funções: como o cérebro discrimina estímulos, integra informação, controla a atenção e relata estados. O problema difícil é explicar por que tudo isso é sentido. Uma explicação completa do mecanismo parece deixar de fora a experiência. Há quem ache que o problema difícil é real e há quem ache que ele se dissolverá quando os fáceis forem resolvidos (Daniel Dennett).
Teorias científicas da consciência
- Espaço de trabalho global (Bernard Baars, Stanislas Dehaene): consciência é a informação que se torna amplamente disponível para muitos sistemas do cérebro.
- Informação integrada (Giulio Tononi): consciência corresponde ao grau de integração de informação de um sistema. Controversa: em 2023, um grupo de pesquisadores a chamou de pseudociência numa carta aberta, o que gerou forte reação de outros cientistas.
- Teorias de ordem superior: um estado é consciente quando há uma representação dele.
- Processamento preditivo: o cérebro como máquina de previsões; a experiência seria o modelo que ele faz do mundo e do corpo.
Em 2023, um experimento de “colaboração adversária” colocou duas teorias rivais para fazer previsões opostas antes dos dados. Nenhuma saiu vitoriosa por completo: um bom exemplo de ciência tentando evitar o viés de confirmação.
A consciência dos outros animais
Não temos acesso direto à experiência de ninguém além de nós mesmos; inferimos a dos outros por comportamento, anatomia e evolução. Pelas mesmas razões, a ciência atribui consciência a muitos animais. A Declaração de Cambridge (2012) afirmou que mamíferos, aves e outros animais, como os polvos, têm os substratos neurológicos da consciência. A Declaração de Nova York sobre a Consciência Animal (2024) disse que há forte apoio científico para a experiência consciente em mamíferos e aves, e pelo menos uma possibilidade realista em todos os vertebrados e em muitos invertebrados, como insetos, crustáceos e moluscos cefalópodes.
E as máquinas?
Com modelos de linguagem que conversam de forma fluente, a pergunta sobre consciência artificial deixou de ser só ficção. As teorias acima dão respostas diferentes, e não há consenso. Falar como se tivesse experiências não prova que um sistema as tenha, assim como não falar não prova que um animal não as tenha.
Para guardar
- O problema difícil pergunta por que há experiência, não só processamento.
- Espaço global, informação integrada, ordem superior e processamento preditivo competem.
- A ciência reconhece consciência em mamíferos e aves e a considera realista em muitos outros animais.
Para pensar
Que evidência te convenceria de que um animal, ou uma máquina, sente algo?
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