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Avançado / Tradições e métodos filosóficos

Filosofia analítica e ciência

Clareza, lógica e análise de conceitos: a tradição de Frege, Russell e Wittgenstein, sua relação com a ciência e a divisão com a filosofia continental.

AvançadoFilosofia da ciência3 min de leitura

A filosofia analítica é a tradição dominante nas universidades de língua inglesa e nórdica desde o século XX, e muito presente no Brasil. Ela se caracteriza menos por doutrinas do que por um estilo: clareza, argumentos explícitos, uso da lógica e atenção ao sentido das palavras.

Uma analogia

A filosofia analítica é como desmontar um relógio para ver cada engrenagem. Às vezes descobre que um problema enorme era só uma peça mal encaixada, uma palavra usada em dois sentidos.

Explicando para uma criança

Às vezes duas pessoas brigam porque usam a mesma palavra com significados diferentes. Alguns filósofos gostam de ajudar a deixar as palavras bem claras, para as pessoas discutirem direito.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Caracterizar a filosofia analítica pelo estilo e pelos fundadores.
  • Descrever as fases: análise lógica, linguagem comum, naturalismo.
  • Explicar a relação com a ciência e a divisão com a tradição continental.

Ajuda ter lido: Positivismo: de Comte ao Círculo de Viena.

Antes de ler: o que você pensa?

Num grupo, alguém diz que “a ciência prova que o amor é só química”, e outro diz que isso é absurdo.

Como uma análise conceitual ajudaria?

Ver o que a lição responde

Perguntando o que “só” e “é” querem dizer: que o amor tem bases químicas, que se reduz a elas, ou que nada mais importa nele? Cada leitura é uma tese diferente, com evidência diferente.

As origens

  • Gottlob Frege criou a lógica moderna (1879) e distinguiu sentido e referência: “estrela da manhã” e “estrela da tarde” têm sentidos diferentes e se referem ao mesmo objeto, Vênus.
  • Bertrand Russell e G. E. Moore romperam com o idealismo britânico. Russell mostrou como a análise lógica dissolve confusões: “o atual rei da França é careca” parece falar de alguém, mas, analisada, afirma que existe exatamente um rei da França e que ele é careca, o que é falso.
  • Ludwig Wittgenstein, no Tractatus (1921), tentou mostrar os limites do que pode ser dito com sentido. Mais tarde, nas Investigações Filosóficas, mudou de ideia: o sentido das palavras está no uso, em “jogos de linguagem”.
  • O Círculo de Viena uniu a nova lógica ao empirismo, dando origem ao positivismo lógico.

Fases

  1. Análise lógica (Frege, Russell, primeiro Wittgenstein, positivistas): traduzir frases para a forma lógica.
  2. Filosofia da linguagem comum (Oxford, anos 1950: Ryle, Austin, segundo Wittgenstein): muitos problemas filosóficos nascem de usos confusos de palavras comuns.
  3. Pós-positivismo e naturalismo (Quine, Kripke, Putnam, Lewis): retorno da metafísica e aproximação com as ciências.

Relação com a ciência

A filosofia analítica sempre foi próxima da ciência: muitos de seus fundadores eram matemáticos ou físicos. Ela deu à filosofia da ciência suas ferramentas: análise de conceitos como “causa”, “lei” e “explicação”, lógica formal, teoria da probabilidade. Hoje, áreas como filosofia da mente, da biologia e da física dialogam diretamente com cientistas.

Analíticos e continentais

A tradição “continental” (fenomenologia, hermenêutica, existencialismo, teoria crítica, pós-estruturalismo; nomes como Husserl, Heidegger, Sartre, Foucault, Derrida) desenvolveu-se sobretudo na França e na Alemanha. A divisão é imperfeita (a geografia não bate: Frege era alemão; Wittgenstein, austríaco), mas descreve estilos diferentes: os continentais tendem a enfatizar a história, a interpretação e a crítica cultural; os analíticos, o argumento e a precisão.

A divisão gerou atritos, como o caso Sokal (1996), em que um físico publicou um artigo propositalmente sem sentido numa revista de estudos culturais para criticar o uso de jargão científico por autores pós-modernos. Hoje muitos filósofos trabalham entre as duas tradições.

Críticas à filosofia analítica: excesso de tecnicidade, foco em quebra-cabeças pequenos e pouca atenção à história e à política. Defensores respondem que clareza é condição para discordar de forma produtiva.

Para guardar

  • Estilo analítico: clareza, argumento, lógica, análise de conceitos.
  • Frege, Russell, Wittgenstein e o Círculo de Viena; depois Quine e o naturalismo.
  • Analíticos e continentais diferem em estilo; a divisão é imperfeita e hoje menos rígida.

Para pensar

Qual discussão recente que você viu era, no fundo, uma confusão sobre o sentido de uma palavra?

Erro comum: “Filosofia analítica é só lógica formal.” Lógica é uma ferramenta, mas a tradição inclui filosofia da linguagem comum, ética, metafísica e filosofia da mente, unidas pelo estilo argumentativo.
Pratique: Quem disse?. Doze ideias, doze pensadores. Ligue cada tese a quem a defendeu.
Correntes desta lição: Positivismo lógico.

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