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Avançado / Teorias e realidade

Reducionismo e emergência

A biologia é só química, e a química é só física? Ou há propriedades que surgem em níveis mais altos e não se explicam pelas partes?

AvançadoFilosofia da ciência2 min de leitura

Uma célula é feita de moléculas, moléculas de átomos, átomos de partículas. Isso quer dizer que tudo, em princípio, se explica pela física? Ou existem fenômenos, como a vida, a mente ou os mercados, que emergem em níveis mais altos e precisam de explicações próprias?

Uma analogia

Uma música é feita de notas, e as notas de vibrações do ar. Mas a melodia, o ritmo e a emoção não aparecem quando se olha uma nota de cada vez. Mais é diferente.

Explicando para uma criança

Um formigueiro faz coisas incríveis, como construir túneis, mas nenhuma formiga sabe o plano. O que o grupo faz é mais do que cada formiga sozinha.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Distinguir reducionismo ontológico, teórico e metodológico.
  • Explicar a realizabilidade múltipla e os limites da redução.
  • Diferenciar emergência fraca e forte, e o mau uso do termo.

Ajuda ter lido: O que é uma explicação científica?.

Antes de ler: o que você pensa?

Alguém diz que “o amor é só química no cérebro”.

Que tipo de reducionismo está em jogo, e o que fica de fora?

Ver o que a lição responde

Pode ser reducionismo ontológico (aceitável: o amor tem base física) ou teórico (mais forte: a explicação química bastaria). O nível psicológico e social do amor pode exigir conceitos próprios.

Três tipos de reducionismo

  • Ontológico: tudo o que existe é composto pelas entidades da física; não há “força vital” nem substâncias extras. A maioria dos cientistas e filósofos aceita isso.
  • Teórico: as teorias de níveis altos podem ser deduzidas das de níveis baixos, como Ernest Nagel propôs (a termodinâmica a partir da mecânica estatística).
  • Metodológico: a melhor estratégia de pesquisa é estudar as partes. Muito bem-sucedida na biologia molecular.

Os problemas da redução teórica

  • Realizabilidade múltipla: a mesma propriedade de alto nível pode ser realizada por bases muito diferentes. “Ser um relógio” pode ser feito de engrenagens, quartzo ou areia; “sentir dor” talvez possa ocorrer em cérebros muito diferentes. Não há uma única tradução para a física.
  • Complexidade: mesmo sabendo as leis das partes, calcular o todo pode ser impossível na prática.
  • Explicações melhores no nível alto: explicar por que um pino quadrado não passa num buraco redondo pela geometria é melhor do que pela posição de cada átomo (exemplo de Hilary Putnam).

Emergência

  • Emergência fraca: propriedades do todo são difíceis de prever, mas em princípio derivam das partes. Exemplos: padrões de revoada de pássaros, engarrafamentos, o “jogo da vida” de computador.
  • Emergência forte: propriedades do todo são genuinamente novas e não deriváveis das partes, talvez com poderes causais próprios. É muito mais controversa; a consciência é o candidato mais citado.

O físico Philip Anderson resumiu num artigo famoso de 1972: “Mais é diferente”. Mesmo aceitando que tudo é feito de partículas, cada nível de organização exige conceitos e leis próprios.

Cuidado com o uso popular: “emergência” às vezes é usada como palavra mágica para dispensar explicação (“a consciência simplesmente emerge”). Dizer que algo emerge não é explicar como.

Para guardar

  • Quase todos aceitam o reducionismo ontológico; o teórico é controverso.
  • Realizabilidade múltipla e complexidade limitam a redução.
  • Emergência fraca é comum; a forte é controversa; “emerge” não é explicação.

Para pensar

Que fenômeno da sua vida é mais do que a soma das partes?

Erro comum: “Se tudo é feito de átomos, a física explica tudo.” Ser feito de átomos não garante que a melhor explicação esteja no nível dos átomos. Cada nível pode exigir leis e conceitos próprios.
Correntes desta lição: Pluralismo científico, Emergentismo.

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