Uma célula é feita de moléculas, moléculas de átomos, átomos de partículas. Isso quer dizer que tudo, em princípio, se explica pela física? Ou existem fenômenos, como a vida, a mente ou os mercados, que emergem em níveis mais altos e precisam de explicações próprias?
Uma analogia
Uma música é feita de notas, e as notas de vibrações do ar. Mas a melodia, o ritmo e a emoção não aparecem quando se olha uma nota de cada vez. Mais é diferente.
Explicando para uma criança
Um formigueiro faz coisas incríveis, como construir túneis, mas nenhuma formiga sabe o plano. O que o grupo faz é mais do que cada formiga sozinha.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Distinguir reducionismo ontológico, teórico e metodológico.
- Explicar a realizabilidade múltipla e os limites da redução.
- Diferenciar emergência fraca e forte, e o mau uso do termo.
Ajuda ter lido: O que é uma explicação científica?.
Antes de ler: o que você pensa?
Alguém diz que “o amor é só química no cérebro”.
Que tipo de reducionismo está em jogo, e o que fica de fora?
Ver o que a lição responde
Pode ser reducionismo ontológico (aceitável: o amor tem base física) ou teórico (mais forte: a explicação química bastaria). O nível psicológico e social do amor pode exigir conceitos próprios.
Três tipos de reducionismo
- Ontológico: tudo o que existe é composto pelas entidades da física; não há “força vital” nem substâncias extras. A maioria dos cientistas e filósofos aceita isso.
- Teórico: as teorias de níveis altos podem ser deduzidas das de níveis baixos, como Ernest Nagel propôs (a termodinâmica a partir da mecânica estatística).
- Metodológico: a melhor estratégia de pesquisa é estudar as partes. Muito bem-sucedida na biologia molecular.
Os problemas da redução teórica
- Realizabilidade múltipla: a mesma propriedade de alto nível pode ser realizada por bases muito diferentes. “Ser um relógio” pode ser feito de engrenagens, quartzo ou areia; “sentir dor” talvez possa ocorrer em cérebros muito diferentes. Não há uma única tradução para a física.
- Complexidade: mesmo sabendo as leis das partes, calcular o todo pode ser impossível na prática.
- Explicações melhores no nível alto: explicar por que um pino quadrado não passa num buraco redondo pela geometria é melhor do que pela posição de cada átomo (exemplo de Hilary Putnam).
Emergência
- Emergência fraca: propriedades do todo são difíceis de prever, mas em princípio derivam das partes. Exemplos: padrões de revoada de pássaros, engarrafamentos, o “jogo da vida” de computador.
- Emergência forte: propriedades do todo são genuinamente novas e não deriváveis das partes, talvez com poderes causais próprios. É muito mais controversa; a consciência é o candidato mais citado.
O físico Philip Anderson resumiu num artigo famoso de 1972: “Mais é diferente”. Mesmo aceitando que tudo é feito de partículas, cada nível de organização exige conceitos e leis próprios.
Para guardar
- Quase todos aceitam o reducionismo ontológico; o teórico é controverso.
- Realizabilidade múltipla e complexidade limitam a redução.
- Emergência fraca é comum; a forte é controversa; “emerge” não é explicação.
Para pensar
Que fenômeno da sua vida é mais do que a soma das partes?
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