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Avançado / Teorias e realidade

Realismo e antirrealismo científico

Elétrons existem ou são só ferramentas de cálculo? O argumento do milagre, a metaindução pessimista e as posições intermediárias.

AvançadoFilosofia da ciência2 min de leitura

Ninguém nunca viu um elétron. Ainda assim, a física fala deles como coisas reais, com carga e massa. As teorias científicas descrevem o mundo como ele é, inclusive a parte invisível, ou são só instrumentos úteis para prever o que vemos? Esse é o debate entre realismo e antirrealismo científico.

Uma analogia

Teorias científicas são como mapas de um território que só vemos em parte. O realista acha que o mapa retrata até as áreas cobertas de neblina. O antirrealista acha que só podemos confiar no mapa onde já andamos; o resto pode ser invenção útil.

Explicando para uma criança

Ninguém consegue ver um átomo com os olhos. Alguns filósofos acham que os átomos existem de verdade, porque a ciência funciona muito bem quando fala deles. Outros acham que são só um jeito útil de fazer as contas.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Distinguir realismo de antirrealismo científico.
  • Reconstruir o argumento do milagre e a metaindução pessimista.
  • Descrever posições intermediárias: realismo estrutural e de entidades.

Ajuda ter lido: Kuhn e os paradigmas.

Antes de ler: o que você pensa?

No século XIX, a teoria do éter previa muito bem o comportamento da luz. Depois, o éter foi abandonado.

Isso derruba o realismo científico?

Ver o que a lição responde

Pressiona, pela metaindução pessimista. Mas o realista estrutural responde que as equações da luz sobreviveram; só a interpretação sobre o éter caiu.

Realismo científico

O realista diz que nossas melhores teorias maduras são aproximadamente verdadeiras, e que as entidades que elas postulam (elétrons, genes, campos) existem de fato. O principal argumento é o argumento do “nenhum milagre”, de Hilary Putnam: se as teorias não fossem aproximadamente verdadeiras, o sucesso delas em prever e manipular o mundo seria um milagre. Nós construímos computadores usando a teoria dos elétrons; seria uma coincidência inexplicável se elétrons não existissem.

A metaindução pessimista

Larry Laudan respondeu com a história: muitas teorias bem-sucedidas foram abandonadas e hoje são consideradas falsas, como o éter luminífero, o calórico (fluido do calor) e o flogisto. Elas também previam bem. Se o sucesso passado não garantiu a verdade delas, por que garantiria a das atuais? Por indução sobre a história, nossas teorias atuais provavelmente também serão abandonadas.

Posições antirrealistas

  • Instrumentalismo: teorias são ferramentas de previsão; perguntar se são verdadeiras é como perguntar se um martelo é verdadeiro.
  • Empirismo construtivo (Bas van Fraassen): a ciência busca teorias empiricamente adequadas, que acertam sobre o observável. Aceitar uma teoria não exige acreditar no que ela diz sobre o inobservável.
  • Convencionalismo (Henri Poincaré): algumas partes das teorias, como a escolha da geometria, são convenções, escolhidas por simplicidade.

Posições intermediárias

  • Realismo estrutural (John Worrall): o que sobrevive às revoluções é a estrutura matemática. As equações de Fresnel para a luz sobreviveram à queda do éter. Devemos ser realistas sobre a estrutura, não sobre a natureza das entidades.
  • Realismo de entidades (Ian Hacking, Nancy Cartwright): acreditamos nas entidades que conseguimos manipular para produzir efeitos. A frase de Hacking: “se você consegue borrifá-los, eles são reais”, sobre os pósitrons usados em experimentos.
  • Realismo seletivo: ser realista apenas sobre as partes das teorias que realmente fizeram o trabalho de prever.
Por que importa: o debate não muda como se faz um experimento, mas muda como interpretamos o que a ciência diz. Também aparece na física quântica, em que interpretações diferentes da mesma matemática divergem sobre o que é real.

Para guardar

  • Realismo: as melhores teorias são aproximadamente verdadeiras, inclusive sobre o invisível.
  • Argumento do milagre contra metaindução pessimista.
  • Meios-termos: realismo estrutural (as equações) e de entidades (o que manipulamos).

Para pensar

Há algo em que você acredita sem poder ver, só por causa do que essa coisa permite fazer? Isso é diferente do caso do elétron?

Erro comum: “Antirrealistas acham que a ciência não funciona.” Antirrealistas aceitam o sucesso da ciência. A discordância é sobre se esse sucesso autoriza a crer no inobservável.
Pratique: Que corrente é essa?. Doze frases, seis correntes. Reconheça o ponto focal de cada argumento.

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