Ninguém nunca viu um elétron. Ainda assim, a física fala deles como coisas reais, com carga e massa. As teorias científicas descrevem o mundo como ele é, inclusive a parte invisível, ou são só instrumentos úteis para prever o que vemos? Esse é o debate entre realismo e antirrealismo científico.
Uma analogia
Teorias científicas são como mapas de um território que só vemos em parte. O realista acha que o mapa retrata até as áreas cobertas de neblina. O antirrealista acha que só podemos confiar no mapa onde já andamos; o resto pode ser invenção útil.
Explicando para uma criança
Ninguém consegue ver um átomo com os olhos. Alguns filósofos acham que os átomos existem de verdade, porque a ciência funciona muito bem quando fala deles. Outros acham que são só um jeito útil de fazer as contas.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Distinguir realismo de antirrealismo científico.
- Reconstruir o argumento do milagre e a metaindução pessimista.
- Descrever posições intermediárias: realismo estrutural e de entidades.
Ajuda ter lido: Kuhn e os paradigmas.
Antes de ler: o que você pensa?
No século XIX, a teoria do éter previa muito bem o comportamento da luz. Depois, o éter foi abandonado.
Isso derruba o realismo científico?
Ver o que a lição responde
Pressiona, pela metaindução pessimista. Mas o realista estrutural responde que as equações da luz sobreviveram; só a interpretação sobre o éter caiu.
Realismo científico
O realista diz que nossas melhores teorias maduras são aproximadamente verdadeiras, e que as entidades que elas postulam (elétrons, genes, campos) existem de fato. O principal argumento é o argumento do “nenhum milagre”, de Hilary Putnam: se as teorias não fossem aproximadamente verdadeiras, o sucesso delas em prever e manipular o mundo seria um milagre. Nós construímos computadores usando a teoria dos elétrons; seria uma coincidência inexplicável se elétrons não existissem.
A metaindução pessimista
Larry Laudan respondeu com a história: muitas teorias bem-sucedidas foram abandonadas e hoje são consideradas falsas, como o éter luminífero, o calórico (fluido do calor) e o flogisto. Elas também previam bem. Se o sucesso passado não garantiu a verdade delas, por que garantiria a das atuais? Por indução sobre a história, nossas teorias atuais provavelmente também serão abandonadas.
Posições antirrealistas
- Instrumentalismo: teorias são ferramentas de previsão; perguntar se são verdadeiras é como perguntar se um martelo é verdadeiro.
- Empirismo construtivo (Bas van Fraassen): a ciência busca teorias empiricamente adequadas, que acertam sobre o observável. Aceitar uma teoria não exige acreditar no que ela diz sobre o inobservável.
- Convencionalismo (Henri Poincaré): algumas partes das teorias, como a escolha da geometria, são convenções, escolhidas por simplicidade.
Posições intermediárias
- Realismo estrutural (John Worrall): o que sobrevive às revoluções é a estrutura matemática. As equações de Fresnel para a luz sobreviveram à queda do éter. Devemos ser realistas sobre a estrutura, não sobre a natureza das entidades.
- Realismo de entidades (Ian Hacking, Nancy Cartwright): acreditamos nas entidades que conseguimos manipular para produzir efeitos. A frase de Hacking: “se você consegue borrifá-los, eles são reais”, sobre os pósitrons usados em experimentos.
- Realismo seletivo: ser realista apenas sobre as partes das teorias que realmente fizeram o trabalho de prever.
Para guardar
- Realismo: as melhores teorias são aproximadamente verdadeiras, inclusive sobre o invisível.
- Argumento do milagre contra metaindução pessimista.
- Meios-termos: realismo estrutural (as equações) e de entidades (o que manipulamos).
Para pensar
Há algo em que você acredita sem poder ver, só por causa do que essa coisa permite fazer? Isso é diferente do caso do elétron?
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