“A ciência é neutra” e “a ciência é ideológica” são frases que se ouve muito. As duas simplificam. A filosofia da ciência distingue os momentos da pesquisa e os tipos de valores, para perguntar onde valores entram legitimamente e onde distorcem.
Uma analogia
Valores na ciência são como a regulagem de um alarme de incêndio. A física da fumaça não depende de valores; mas quão sensível deixar o alarme depende de quanto custa um alarme falso e quanto custa um incêndio não detectado.
Explicando para uma criança
Cientistas escolhem o que estudar porque acham importante, e isso é normal. Mas na hora de dizer se uma ideia é verdadeira, não vale escolher só porque gostariam que fosse.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Distinguir valores epistêmicos e não epistêmicos e os momentos da pesquisa.
- Explicar o ideal livre de valores e o argumento do risco indutivo.
- Descrever contribuições das epistemologias feministas à objetividade.
Ajuda ter lido: Sociologia da ciência e construtivismo.
Antes de ler: o que você pensa?
Uma agência precisa decidir se um agrotóxico é seguro com estudos inconclusivos.
Os valores devem influenciar a decisão?
Ver o que a lição responde
Não devem decidir o que é verdade, mas influenciam legitimamente quanta evidência exigir antes de liberar: o custo de errar para a saúde pesa diferente do custo de errar para a produção.
Tipos de valores
- Epistêmicos: ligados à busca da verdade, como precisão, consistência, simplicidade e poder explicativo.
- Não epistêmicos: éticos, sociais, políticos, econômicos.
Onde os valores entram sem problema
- Na escolha do que pesquisar: financiar pesquisa sobre malária ou sobre calvície é uma escolha de valores.
- Nos limites éticos: não se fazem experimentos que causam sofrimento grave a humanos sem consentimento; comitês de ética existem para isso. (Para os animais, essa proteção ainda é bem menor; veja o debate sobre testes em animais.)
- Na aplicação: o que fazer com o conhecimento sobre energia nuclear é uma questão política.
O ideal da ciência livre de valores
O ideal tradicional diz que, no momento de aceitar ou rejeitar uma hipótese, só valores epistêmicos devem pesar. Desejar que algo seja verdade não pode ser razão para acreditar que é. Esse ideal protege contra a ciência que conclui o que o financiador quer.
O argumento do risco indutivo
Richard Rudner (1953) e, mais recentemente, Heather Douglas argumentaram que valores entram também na aceitação. Como a evidência nunca dá certeza, decidir quanta evidência basta depende das consequências de errar. Se a pergunta é se um produto químico causa câncer, um falso negativo (dizer que é seguro quando não é) pode matar pessoas; um falso positivo pode fechar uma fábrica. O nível de exigência depende de quanto pesam esses erros, e isso é um julgamento de valor.
Douglas distingue papéis: valores não podem servir de razão para crer (o papel direto), mas podem legitimamente definir quanta evidência é suficiente (o papel indireto).
Epistemologias feministas
- Empirismo contextual (Helen Longino): a objetividade não vem de cientistas individuais sem valores, mas de comunidades com diversidade de perspectivas, crítica mútua e padrões compartilhados.
- Teoria do ponto de vista (Sandra Harding): grupos marginalizados podem notar vieses invisíveis para os grupos dominantes. Exemplos: pesquisas médicas que por décadas testaram remédios quase só em homens; a primatologia, que mudou quando pesquisadoras passaram a observar o comportamento das fêmeas.
- Objetividade forte: examinar criticamente também os pressupostos de quem faz a pesquisa.
Para guardar
- Valores entram legitimamente na escolha de temas, na ética e na aplicação.
- Risco indutivo: quanta evidência basta depende do custo de errar.
- Objetividade cresce com diversidade de perspectivas e crítica mútua (Longino, Harding).
Para pensar
Num tema que te importa, qual erro é pior: o falso positivo ou o falso negativo? Isso muda quanta evidência você exige?
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