Ciência
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Avançado / Tradições e métodos filosóficos

Sociologia da ciência e construtivismo

Normas de Merton, o programa forte, a teoria ator-rede de Latour e as “guerras da ciência”: o que a ciência tem de social, e onde o construtivismo exagera.

A ciência é feita por pessoas, em instituições, com dinheiro, prestígio e disputas. Estudar esse lado social é o trabalho da sociologia da ciência. A grande questão é até onde vai a influência social: só na escolha de temas e no ritmo da pesquisa, ou no próprio conteúdo das teorias?

Uma analogia

Uma ponte é construída por pessoas, com orçamento, política e erros humanos. Isso não quer dizer que a física da carga seja inventada: se os engenheiros errarem as contas, a ponte cai, quaisquer que sejam os acordos sociais. A ciência é construída socialmente e testada pela natureza.

Explicando para uma criança

Cientistas são pessoas: trabalham juntos, discutem, às vezes brigam. Isso influencia o que eles estudam. Mas no fim, a natureza é que diz se a ideia funciona ou não.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Descrever as normas de Merton e o programa forte.
  • Explicar o construtivismo de Latour e as guerras da ciência.
  • Separar o que a sociologia mostrou de real das conclusões relativistas exageradas.

Ajuda ter lido: Kuhn e os paradigmas.

Antes de ler: o que você pensa?

Uma pesquisa mostra que estudos financiados pela indústria do açúcar nos anos 1960 minimizaram o papel do açúcar em doenças cardíacas.

Isso mostra que toda ciência é construção social?

Ver o que a lição responde

Mostra que interesses influenciam a pesquisa, e por isso transparência e independência importam. Mas o erro foi descoberto por mais ciência, o que mostra que o sistema também se corrige.

Merton e o ethos da ciência

Em 1942, Robert Merton descreveu as normas institucionais da ciência, resumidas na sigla CUDOS: comunalismo (resultados são de todos), universalismo (vale o argumento, não quem o diz), desinteresse (a recompensa é o reconhecimento, não o ganho pessoal) e ceticismo organizado. Para Merton, o social explicava a organização da ciência, mas não o conteúdo do conhecimento.

O programa forte

Nos anos 1970, David Bloor e Barry Barnes, em Edimburgo, propuseram o programa forte da sociologia do conhecimento científico. Seu princípio mais polêmico era a simetria: crenças verdadeiras e falsas, racionais e irracionais, devem ser explicadas pelo mesmo tipo de causas sociais. Não se pode dizer que os cientistas aceitaram a teoria certa “porque era certa” e a errada “por interesses”.

Construtivismo e Latour

Bruno Latour e Steve Woolgar observaram um laboratório como antropólogos (A Vida de Laboratório, 1979) e descreveram como “fatos” são construídos por inscrições, negociações e alianças. Latour desenvolveu depois a teoria ator-rede, que trata humanos e não humanos (micróbios, instrumentos) como participantes da rede que estabiliza um fato.

As guerras da ciência

Nos anos 1990, cientistas reagiram ao que viam como relativismo. Paul Gross e Norman Levitt publicaram Higher Superstition; Alan Sokal fez sua paródia publicada numa revista de estudos culturais. A crítica central: se fatos são só construções sociais, por que a física funciona e a astrologia não?

O que ficou

  • A ciência tem dimensão social real: financiamento, prestígio, conflitos de interesse e quem é ouvido influenciam o que se pesquisa e quando se aceita uma conclusão.
  • Estudos de controvérsias mostraram que o encerramento de debates envolve negociação, não só lógica.
  • O próprio Latour, em 2004, lamentou que argumentos construtivistas estivessem sendo usados por negacionistas do clima, e pediu uma crítica que fortalecesse fatos, não os dissolvesse.
  • A tese de que o conteúdo das teorias é determinado só por fatores sociais ignora o papel da natureza nos resultados.
  • O princípio da simetria, levado ao extremo, impede de explicar por que algumas teorias funcionam.
Construção social, em dois sentidos: dizer que a classificação de doenças mentais tem componentes sociais é razoável e discutido dentro da própria psiquiatria. Dizer que a gravidade é uma construção social é outra coisa. Ian Hacking (The Social Construction of What?) mostrou como separar esses sentidos.

Para guardar

  • Merton: normas institucionais (comunalismo, universalismo, desinteresse, ceticismo).
  • Programa forte e Latour: o social também no conteúdo; as guerras da ciência reagiram.
  • Social não é arbitrário: interesses influenciam, a natureza testa.

Para pensar

Que interesse econômico ou político poderia enviesar pesquisas na área que mais te interessa?

Erro comum: “A sociologia da ciência prova que a ciência é só opinião de um grupo.” Ela mostra a dimensão social da produção do conhecimento. As versões que reduzem o conteúdo a interesses sociais são minoritárias e muito criticadas.
Pratique: Quem disse?. Doze ideias, doze pensadores. Ligue cada tese a quem a defendeu.

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