Quando um experimento contradiz uma previsão, o que exatamente foi refutado? O físico Pierre Duhem notou, em 1906, que uma previsão nunca vem de uma hipótese sozinha. Ela depende também da teoria dos instrumentos, de hipóteses auxiliares e das condições do experimento. Se a previsão falha, a culpa pode estar em qualquer uma dessas peças.
Uma analogia
Quando um carro não liga, o defeito pode estar na bateria, no motor de arranque, no combustível ou na chave. O teste “girei a chave e nada” não diz qual peça falhou. Testes científicos também envolvem várias peças, e é preciso julgamento para achar a culpada.
Explicando para uma criança
Se o seu bolo não cresceu, pode ter sido o fermento, o forno ou a receita. Só olhando o bolo, você não sabe qual foi o problema. Os cientistas também precisam descobrir qual parte da ideia deu errado.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Explicar a tese Duhem-Quine e o holismo da confirmação.
- Distinguir subdeterminação fraca e forte.
- Avaliar as consequências para o falsificacionismo e a escolha de teorias.
Ajuda ter lido: Popper e a falseabilidade.
Antes de ler: o que você pensa?
Um estudo pequeno diz que um alimento comum causa câncer, contrariando dezenas de estudos maiores.
Onde é mais racional procurar o erro?
Ver o que a lição responde
Na peça mais frágil: o estudo novo (amostra, desenho, análise). A teia de evidências anteriores tem muito mais apoio.
A tese Duhem-Quine
W. V. O. Quine radicalizou a ideia em “Dois dogmas do empirismo” (1951): nossas crenças enfrentam o tribunal da experiência em conjunto, como uma teia. Diante de uma experiência contrária, podemos ajustar qualquer parte da teia; em princípio, até leis da lógica. Escolhemos ajustar a periferia (hipóteses específicas) e proteger o centro (lógica, matemática, leis bem estabelecidas) por razões de conservadorismo e simplicidade.
Exemplos
- Netuno e Vulcano: as anomalias na órbita de Urano foram atribuídas a um planeta desconhecido, e Netuno foi achado (1846). As anomalias na órbita de Mercúrio foram atribuídas a um planeta chamado Vulcano, que nunca apareceu; a solução veio da relatividade geral, que mudou o núcleo da teoria. Mesma estratégia, resultados opostos.
- Neutrinos mais rápidos que a luz (2011): o experimento OPERA mediu neutrinos aparentemente mais rápidos que a luz. Em vez de abandonar a relatividade, os físicos procuraram um erro nos instrumentos, e acharam: um cabo de fibra óptica mal conectado.
Subdeterminação das teorias pela evidência
Uma tese relacionada diz que, para qualquer conjunto de dados, existem várias teorias incompatíveis que os explicam igualmente bem. Há duas versões:
- Fraca (transitória): com a evidência disponível hoje, às vezes mais de uma teoria se encaixa. É comum e se resolve com mais dados.
- Forte (permanente): mesmo com toda evidência possível, teorias rivais empiricamente equivalentes continuariam empatadas. É bem mais controversa: filósofos como Laudan e Leplin argumentam que casos genuínos são raros ou artificiais.
Consequências
- Refutações não são automáticas: exigem julgamento sobre qual peça culpar. Isso enfraquece o falsificacionismo ingênuo.
- A escolha entre teorias usa critérios além dos dados, como simplicidade, alcance e fecundidade (os valores de Kuhn).
- Alguns sociólogos usaram a subdeterminação para dizer que fatores sociais decidem a escolha. Críticos respondem que critérios epistêmicos bastam na maioria dos casos.
Para guardar
- Hipóteses enfrentam a experiência em conjunto; a culpa por uma falha precisa ser atribuída.
- Subdeterminação fraca é comum e passageira; a forte é controversa.
- Desconfiar primeiro do elo mais fraco é razoável, não dogmático.
Para pensar
Quando algo dá errado no seu dia a dia, como você decide qual parte do plano culpar?
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