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Bayesianismo: atualizar crenças com evidências

Graus de crença, probabilidade a priori e a regra de Bayes: como a evidência deve mudar o que pensamos, e por que um exame com 99% de acerto pode enganar.

AvançadoEpistemologiaEstatística3 min de leitura

E se, em vez de perguntar se uma teoria é verdadeira ou falsa, perguntássemos quanto devemos acreditar nela, e como essa confiança deve mudar com cada nova evidência? Essa é a ideia do bayesianismo, hoje uma das abordagens mais influentes da epistemologia e da estatística.

Uma analogia

O bayesiano é como um investigador que começa com suspeitas proporcionais (o mordomo é sempre suspeito, mas pouco) e ajusta a cada pista. Uma pista que só faria sentido se o mordomo fosse culpado pesa muito; uma pista que qualquer um deixaria pesa pouco.

Explicando para uma criança

Se o seu amigo diz que viu um gato na rua, você acredita fácil, porque tem muito gato. Se ele diz que viu um leão, você precisa de muito mais prova, porque leão na rua é raríssimo.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Explicar graus de crença e a regra de Bayes em palavras.
  • Resolver o problema do exame com taxa de base baixa.
  • Avaliar forças e críticas do bayesianismo como teoria da confirmação.

Ajuda ter lido: Estatística para entender ciência, O problema da indução.

Antes de ler: o que você pensa?

Um teste de detector de mentiras acerta 90% das vezes. Numa empresa de 1.000 funcionários, ele é usado para achar 1 ladrão.

Se o teste acusar alguém, qual a chance de essa pessoa ser o ladrão?

Ver o que a lição responde

Muito baixa: cerca de 100 inocentes seriam acusados por erro, para 1 culpado. Com taxa de base tão pequena, até um teste bom gera sobretudo falsos positivos.

Graus de crença

Para o bayesiano, crenças vêm em graus, que podem ser representados como probabilidades entre 0 (certeza de que é falso) e 1 (certeza de que é verdadeiro). Um meteorologista que diz “70% de chance de chuva” expressa um grau de crença. A racionalidade exige que esses graus obedeçam às regras da probabilidade; caso contrário, argumentam os bayesianos, a pessoa aceitaria apostas que perde de qualquer jeito (o argumento do “livro holandês”).

A regra de Bayes

O teorema do reverendo Thomas Bayes (século XVIII) diz como atualizar a crença numa hipótese H depois de ver uma evidência E:

P(H|E) = P(E|H) × P(H) / P(E)

  • P(H), a priori: quanto você acreditava em H antes.
  • P(E|H), a verossimilhança: quão esperada seria a evidência se H fosse verdade.
  • P(E): quão esperada é a evidência em geral.
  • P(H|E), a posteriori: quanto você deve acreditar em H depois.

O exemplo do exame

Uma doença atinge 1 em cada 1.000 pessoas. Um exame detecta 99% dos doentes e dá falso positivo em 5% dos saudáveis. Seu exame deu positivo. Qual a chance de você ter a doença? A maioria, inclusive muitos médicos em estudos, responde perto de 95%. A resposta certa é cerca de 2%. Em 1.000 pessoas, 1 doente dá positivo, mas cerca de 50 saudáveis também. Dos 51 positivos, só 1 está doente. A priori baixa (a raridade da doença) pesa muito.

O bayesianismo e a ciência

  • Explica a confirmação: uma evidência confirma H quando é mais provável se H for verdadeira do que se for falsa.
  • Explica por que previsões surpreendentes valem mais: se E seria improvável sem H, observar E aumenta muito a crença em H.
  • Explica “afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias”: com uma priori muito baixa, é preciso evidência muito forte para chegar a uma crença alta.
  • Convergência: pessoas que começam com prioris diferentes tendem a convergir com evidência suficiente.

Críticas

  • Subjetividade das prioris: de onde vêm? Duas pessoas podem começar muito diferentes. (Resposta: com evidência suficiente, convergem; e há regras para prioris razoáveis.)
  • Problema da evidência antiga: a órbita de Mercúrio já era conhecida quando confirmou a relatividade; se P(E) = 1, a regra diz que ela não confirma nada.
  • Idealização: ninguém calcula probabilidades para todas as crenças.
  • Na estatística, há um debate antigo entre bayesianos e frequentistas (que usam p-valores e intervalos de confiança).
Para a vida: antes de reagir a uma notícia, pergunte qual era a chance de aquilo ser verdade antes da notícia (a priori) e quão provável seria a notícia existir mesmo se fosse falsa.

Para guardar

  • Crença em graus, atualizada pela regra de Bayes.
  • A priori importa: para hipóteses improváveis, só evidência forte muda muito.
  • Críticas: prioris subjetivas, evidência antiga e idealização.

Para pensar

Que crença sua deveria ter uma priori mais baixa do que você dá a ela?

Erro comum: “Um exame com 99% de acerto deu positivo, então tenho 99% de chance de estar doente.” A chance depende também de quão comum é a doença. Para doenças raras, a maioria dos positivos pode ser falsa.
Pratique: Qual o nível da evidência?. Dez estudos descritos em uma frase. Diga em que degrau da pirâmide cada um está.
Correntes desta lição: Bayesianismo.

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