“Nenhum objeto viaja mais rápido que a luz” e “nenhuma esfera de ouro tem mais de um quilômetro de diâmetro” podem ser ambas verdadeiras. Mas a primeira parece uma lei da natureza, e a segunda, um acidente. Qual é a diferença? Essa pergunta divide os filósofos.
Uma analogia
Para o humeano, leis são como a melhor legenda para um álbum enorme de fotos: o resumo mais curto que descreve tudo. Para o necessitarista, são como as regras do jogo que fazem as jogadas acontecerem.
Explicando para uma criança
Quando você solta uma bola, ela cai. Sempre. Os cientistas chamam isso de lei. Os filósofos perguntam: a bola cai porque existe uma regra obrigando, ou a “lei” é só o nosso jeito de dizer que ela sempre cai?
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Distinguir regularidades legais de acidentais.
- Comparar humeanismo, necessitarismo e disposicionalismo.
- Explicar a tese de Cartwright e o problema das ciências especiais.
Ajuda ter lido: O que é uma explicação científica?, Hipótese, teoria e lei.
Antes de ler: o que você pensa?
Todas as moedas no seu bolso hoje são de 1 real. Todos os metais se dilatam quando aquecidos.
Por que só a segunda parece uma lei?
Ver o que a lição responde
A primeira é acidental e não sustenta contrafactuais (“se esta moeda de 50 centavos estivesse no bolso, seria de 1 real” é falso). A segunda sustenta: “se este metal fosse aquecido, dilataria”.
Regularidade (humeanismo)
Para os herdeiros de Hume, não há nada na natureza além de fatos particulares; leis são regularidades. A versão mais influente é a de David Lewis, a teoria do melhor sistema: leis são os axiomas do sistema que melhor equilibra simplicidade e poder de descrever todos os fatos. A esfera de ouro não entra porque não simplifica nada.
Problema: se as leis só resumem o que acontece, elas não explicam por que acontece. Seria circular dizer que a pedra cai por causa de uma lei que só resume que pedras caem.
Necessitarismo
David Armstrong, Fred Dretske e Michael Tooley propuseram que leis são relações de necessidade entre propriedades: ser massa necessita atrair outra massa. Isso explicaria por que regularidades legais se mantêm e acidentais não.
Problema: o que é essa “necessitação”, e como a conhecemos? Críticos dizem que é só um nome para o mistério.
Disposições e poderes
Outra família (Alexander Bird, Stephen Mumford) diz que as propriedades têm poderes essenciais: carga elétrica é, em parte, a disposição de atrair e repelir. Leis derivam desses poderes.
As leis “mentem”?
Nancy Cartwright notou que as leis fundamentais, entendidas como descrições literais, quase nunca são verdadeiras: a lei da gravitação descreve corpos sem cargas elétricas, sem atrito e sem outras forças, o que não existe. Para ela, leis descrevem capacidades que se manifestam em condições ideais ou em máquinas construídas para isolá-las.
E as ciências especiais?
Biologia, economia e psicologia têm “leis” cheias de exceções e cláusulas ceteris paribus (“mantido o resto igual”). Algumas pessoas acham que só a física tem leis de verdade; outras, que leis vêm em graus de estabilidade.
Para guardar
- Leis sustentam contrafactuais; regularidades acidentais, não.
- Humeanos: leis resumem; necessitaristas: leis obrigam; disposicionalistas: leis vêm dos poderes das propriedades.
- Cartwright: leis fundamentais valem em condições ideais.
Para pensar
Há “leis” na sua área de interesse que valem só “mantido o resto igual”?
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