Por muito tempo, a filosofia da ciência usou a física como modelo. Mas a biologia levanta perguntas próprias, que não aparecem na física: o que é estar vivo, o que é uma espécie, o que significa dizer que o coração “serve para” bombear sangue.
Uma analogia
Explicar a função de um traço biológico é como explicar por que um guarda-chuva tem cabo curvo. Não foi um plano da natureza: os modelos que funcionavam melhor foram os que continuaram sendo fabricados. Na evolução, “fabricados” quer dizer selecionados.
Explicando para uma criança
Biólogos se perguntam coisas como: o que faz um cachorro e um lobo serem parecidos ou diferentes? Por que temos coração? Os filósofos ajudam a pensar com cuidado o que essas perguntas querem dizer.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Discutir o problema da definição de espécie.
- Explicar a teoria etiológica da função.
- Apresentar os debates sobre níveis de seleção e adaptacionismo.
Ajuda ter lido: Reducionismo e emergência.
Antes de ler: o que você pensa?
Uma reportagem diz que “o cérebro evoluiu para nos fazer felizes”.
O que está errado na frase?
Ver o que a lição responde
Atribui propósito à evolução e supõe que a felicidade foi o efeito selecionado. A seleção favorece o que aumenta a sobrevivência e a reprodução, não a felicidade.
O que é uma espécie?
Parece simples, mas há mais de vinte definições. A mais conhecida, de Ernst Mayr, diz que espécies são grupos que se reproduzem entre si e estão isolados reprodutivamente de outros. Ela não funciona para bactérias, que trocam genes sem reprodução sexual, nem para fósseis. Outras definições usam a genealogia ou a semelhança. Filósofos discutem se espécies são categorias naturais ou ferramentas úteis de classificação.
Função e propósito
Dizemos que o coração existe “para” bombear sangue. Mas a biologia moderna rejeita propósitos na natureza. A solução mais aceita é a teoria etiológica: a função de um traço é o efeito pelo qual ele foi selecionado no passado. O coração faz barulho e bombeia sangue, mas só o bombeamento explica por que corações foram selecionados.
Níveis de seleção
A seleção natural age sobre o quê? Richard Dawkins popularizou a visão do gene egoísta: genes são as unidades que se replicam, e organismos são seus veículos. Outros defendem a seleção de indivíduos e, em certos casos, de grupos (seleção multinível). O debate envolve como explicar o altruísmo, como o das abelhas operárias.
Adaptacionismo
Stephen Jay Gould e Richard Lewontin criticaram, em 1979, a tendência de explicar todo traço como adaptação, comparando-a ao Dr. Pangloss de Voltaire, para quem tudo existe para o melhor. Muitos traços podem ser subprodutos, restrições do desenvolvimento ou acaso (deriva genética). A crítica tem implicações também para a psicologia evolucionista.
Reducionismo na biologia
A biologia molecular mostrou o poder do reducionismo metodológico. Mas a genética clássica não se deduz da molecular de forma simples: um mesmo traço depende de muitos genes, e um gene afeta muitos traços. É um caso clássico da discussão sobre reducionismo e emergência.
Para guardar
- Não há uma definição única de espécie.
- Função é o efeito pelo qual o traço foi selecionado, sem propósito na natureza.
- Nem todo traço é adaptação: Gould e Lewontin contra o adaptacionismo.
Para pensar
Que traço humano você supunha ter uma função e talvez seja só subproduto?
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