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Avançado / Tradições e métodos filosóficos

Naturalismo e epistemologia naturalizada

Para Quine, a epistemologia deve ser parte da ciência. O que isso muda, o problema da circularidade e a influência da ciência cognitiva.

AvançadoEpistemologiaFilosofia da ciência2 min de leitura

Desde Descartes, a epistemologia tentou fundamentar a ciência de fora, a partir de certezas anteriores a ela. Em 1969, Quine propôs abandonar esse projeto. No ensaio “Epistemologia naturalizada”, defendeu que o estudo do conhecimento deveria ser um capítulo da psicologia: estudar, com os métodos da ciência, como seres humanos passam de estímulos sensoriais a teorias sobre o mundo.

Uma analogia

O naturalista é como o marinheiro que conserta o barco em alto-mar. Não há porto seguro para desmontar tudo e reconstruir do zero; trocamos tábua por tábua, usando as tábuas que ainda flutuam.

Explicando para uma criança

Alguns filósofos acham que, para entender como a gente aprende as coisas, o melhor é estudar o cérebro e o jeito como as pessoas pensam, igual os cientistas estudam qualquer outra coisa.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Explicar o naturalismo metodológico e ontológico.
  • Apresentar as objeções da normatividade e da circularidade, com respostas.
  • Citar desenvolvimentos atuais: filosofia experimental e epistemologia evolutiva.

Ajuda ter lido: O que é epistemologia?, Como justificar uma crença.

Antes de ler: o que você pensa?

Um estudo mostra que juízes dão sentenças mais duras antes do almoço do que depois.

O que um epistemólogo naturalista faria com esse dado?

Ver o que a lição responde

Usaria a descoberta (se confirmada) para propor normas práticas de decisão, como pausas ou revisões cegas. Descrição informa a norma, sem substituí-la.

A ideia

O naturalismo filosófico tem duas faces:

  • Metodológica: a filosofia não tem um método próprio superior ao da ciência; deve ser contínua com ela.
  • Ontológica: o que existe é o que nossas melhores teorias científicas dizem existir, sem entidades sobrenaturais.

Quine usava a imagem do barco de Neurath: somos como marinheiros que precisam consertar o barco em alto-mar, tábua por tábua, sem nunca poder levá-lo a um dique seco. Não há ponto de partida fora da ciência.

A objeção da normatividade

Jaegwon Kim criticou: a epistemologia tradicional pergunta como devemos formar crenças (normas), e a psicologia descreve como de fato as formamos. Naturalizar a epistemologia seria mudar de assunto e perder a dimensão normativa.

Respostas naturalistas:

  • Confiabilismo: as normas são de tipo instrumental. Devemos usar processos que, como a ciência mostra, tendem a produzir verdades.
  • Epistemologia melhorativa: a psicologia dos vieses (Kahneman, Tversky) mostra onde erramos, e isso permite criar normas práticas, como usar taxas de base ou listas de verificação.

A objeção da circularidade

Usar a ciência para justificar a ciência não é circular? O naturalista aceita uma circularidade virtuosa: não há alternativa melhor, e uma teoria que explica sua própria confiabilidade é melhor do que uma que se autodestrói. A ciência cognitiva, por exemplo, pode mostrar que nossa percepção é confiável em certas condições e falha em outras (ilusões), e isso corrige o próprio método.

Naturalismo hoje

  • Filosofia experimental: testar intuições filosóficas com questionários e experimentos, como nos casos de Gettier.
  • Epistemologia evolutiva: nossas capacidades cognitivas foram moldadas pela seleção natural, o que explica tanto acertos quanto vieses.
  • Naturalismo na filosofia da ciência: estudar a ciência real, com história e sociologia, em vez de reconstruções idealizadas.
Críticas de outro tipo: filósofos como Alvin Plantinga argumentaram que, se nossa mente foi moldada só para sobreviver, não para acertar verdades, o naturalismo minaria a confiança na própria razão. Naturalistas respondem que crenças verdadeiras sobre o ambiente geralmente ajudam a sobreviver.

Para guardar

  • Quine: a epistemologia é parte da ciência; o barco se conserta em alto-mar.
  • Objeções: perda da normatividade e circularidade, com respostas instrumentais.
  • Hoje: filosofia experimental, psicologia dos vieses e epistemologia evolutiva.

Para pensar

Que descoberta sobre como o cérebro funciona mudou o modo como você confia nos seus julgamentos?

Erro comum: “Naturalismo é só dizer que a ciência resolve tudo.” É a tese de que a filosofia é contínua com a ciência e usa seus resultados. Naturalistas debatem normas, circularidade e limites, e não dispensam a filosofia.
Pratique: Que corrente é essa?. Doze frases, seis correntes. Reconheça o ponto focal de cada argumento.

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