Se perguntarem por que você acredita em algo, você dá uma razão. E se perguntarem o que justifica essa razão? E a seguinte? Essa cadeia de “por quês” é o problema do regresso, e as principais teorias da justificação são respostas a ele.
Uma analogia
Fundacionalismo é um prédio: andares sobre uma fundação. Coerentismo é uma teia de aranha: cada fio é sustentado pelos outros. Confiabilismo é uma fábrica: o que importa é se a máquina costuma produzir peças boas. As palavras cruzadas de Haack misturam pista e encaixe.
Explicando para uma criança
Quando alguém pergunta “por quê?”, você dá um motivo. Aí a pessoa pergunta “e por quê?” de novo, e de novo. Os filósofos discutem onde essa brincadeira de porquês pode parar.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Explicar o problema do regresso da justificação.
- Comparar fundacionalismo, coerentismo e confiabilismo, com uma crítica a cada um.
- Descrever o fundherentismo de Haack como modelo para a ciência.
Ajuda ter lido: O que é epistemologia?.
Antes de ler: o que você pensa?
Um detetive tem várias pistas fracas que, juntas, apontam para o mesmo suspeito, e uma impressão digital.
O que justifica a conclusão: a pista mais forte ou o encaixe de todas?
Ver o que a lição responde
As duas coisas. A impressão digital ancora (como uma crença básica) e as pistas que se encaixam reforçam (coerência). É o modelo das palavras cruzadas.
As saídas possíveis
A cadeia de razões pode (1) terminar em crenças que não precisam de outras, (2) dar voltas e se apoiar mutuamente, (3) seguir ao infinito ou (4) parar em algo que não é razão nenhuma. O trilema de Agripa, um cético antigo, dizia que todas as opções são ruins.
Fundacionalismo
Algumas crenças são básicas: justificadas por si mesmas, sem depender de outras. As demais se apoiam nelas, como um prédio sobre a fundação. Para Descartes, as básicas eram verdades indubitáveis, como “eu penso”. Para empiristas, eram as experiências dos sentidos, como “vejo uma mancha vermelha”.
Crítica: o que torna uma crença básica? Se for algo, então ela depende desse algo; se não for nada, a escolha parece arbitrária.
Coerentismo
Não há fundação. Uma crença é justificada quando se encaixa num sistema coerente de crenças que se apoiam mutuamente, como os fios de uma teia ou um barco que se conserta em alto-mar, tábua por tábua (a imagem é de Otto Neurath).
Crítica: um romance bem escrito também é coerente. Como a coerência se liga ao mundo real?
Confiabilismo
Alvin Goldman propôs mudar o foco: uma crença está justificada se foi produzida por um processo confiável, isto é, que tende a gerar crenças verdadeiras, como a visão em boas condições ou um termômetro calibrado. Não é preciso que a pessoa saiba que o processo é confiável.
Crítica: e se alguém tem um processo confiável mas nenhuma razão para confiar nele, ou um processo não confiável sem ter como saber? Essa disputa entre internalistas (a justificação precisa ser acessível à pessoa) e externalistas (não precisa) segue viva.
A ciência como modelo misto
A filósofa Susan Haack propôs o fundherentismo, comparando a justificação a palavras cruzadas: cada resposta é apoiada pela pista (a experiência, como no fundacionalismo) e pelo encaixe com as outras respostas (a coerência). A ciência real parece funcionar assim: observações ancoram as teorias, e teorias ajudam a interpretar observações.
Para guardar
- O regresso dos “por quês” precisa terminar em algum lugar, ou dar voltas.
- Fundacionalismo: base; coerentismo: teia; confiabilismo: processo que costuma acertar.
- A ciência combina âncoras na observação com coerência entre teorias.
Para pensar
Pense numa crença importante sua. Ela se apoia mais em uma base firme ou no encaixe com outras crenças?
Teste rápido · 1 de 3
Aplique · 2 de 3
Confira · 3 de 3