Em 1963, Edmund Gettier publicou um artigo de três páginas chamado “Crença verdadeira justificada é conhecimento?”. A resposta era não, e o artigo virou um dos mais citados da filosofia do século XX.
Uma analogia
É como acertar o gol depois de chutar mal: a bola bate na canela do zagueiro e entra. O gol vale no placar, mas ninguém diz que o atacante sabia fazer aquele gol. Conhecimento é o gol de quem chutou certo.
Explicando para uma criança
Imagine que você diz que tem bolo na geladeira porque viu um bolo ontem. Mas alguém comeu aquele bolo e, sem você saber, sua mãe colocou outro. Você acertou, mas foi por sorte. Os filósofos perguntam: você sabia?
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Reconstruir um caso de Gettier e explicar por que ele desafia a definição clássica.
- Citar propostas de conserto: sensibilidade, segurança e virtudes.
- Relacionar o problema à diferença entre prever e explicar na ciência.
Ajuda ter lido: Crença verdadeira justificada, Como justificar uma crença.
Antes de ler: o que você pensa?
Você vê no painel do aeroporto “voo no horário”. O painel está travado desde ontem, mas, por acaso, o voo está mesmo no horário.
Você sabia que o voo estava no horário?
Ver o que a lição responde
É um caso de Gettier: crença verdadeira e justificada (painéis costumam funcionar), mas o acerto foi sorte. A maioria das pessoas diz que você não sabia.
Um caso de Gettier
Smith e Jones concorrem a uma vaga. Smith tem boas razões para acreditar que Jones vai ser contratado (o chefe disse) e que Jones tem dez moedas no bolso (ele contou). Smith conclui: “quem vai ser contratado tem dez moedas no bolso”. No fim, quem é contratado é o próprio Smith, que, sem saber, também tinha dez moedas no bolso.
A crença de Smith era verdadeira (o contratado tinha dez moedas), justificada (ele tinha boas razões) e ele acreditava nela. Mas parece absurdo dizer que ele sabia. Ele acertou por sorte.
Outros exemplos
- O relógio parado (de Russell): você olha um relógio que parou ontem exatamente às 14h, e por acaso são 14h.
- Os celeiros falsos (de Goldman): numa região cheia de fachadas falsas de celeiros, você olha para o único celeiro verdadeiro e pensa “isso é um celeiro”. Acertou, mas poderia facilmente ter errado.
- A ovelha no campo (de Chisholm): você vê um cachorro com cara de ovelha e conclui “há uma ovelha no campo”. Há mesmo, escondida atrás de uma pedra.
Tentativas de conserto
- Sem falsas premissas: conhecimento exige não ter raciocinado a partir de algo falso. (Mas no caso dos celeiros não há premissa falsa.)
- Derrotabilidade: não pode haver uma verdade que, se você a soubesse, derrubaria sua justificação.
- Sensibilidade (Nozick): se a crença fosse falsa, você não acreditaria nela.
- Segurança (Sosa, Williamson): a crença não poderia facilmente ter sido falsa.
- Virtudes (Sosa, Zagzebski): conhecimento é acertar por causa da competência, não apesar dela.
- Conhecimento primeiro (Williamson): talvez conhecimento não se analise em partes; ele seria o conceito básico.
Por que isso importa para a ciência
A ciência quer mais do que acertar: quer acertar pelas razões certas. Um modelo que prevê bem os dados por um mecanismo errado é um caso de Gettier em grande escala. A astronomia de Ptolomeu previa eclipses com boa precisão usando um universo com a Terra no centro. Previsão certa não garante explicação certa.
Para guardar
- Crença verdadeira justificada pode ser acerto por sorte.
- Propostas de conserto: sem premissas falsas, sensibilidade, segurança, virtudes.
- Na ciência, prever certo não basta: é preciso explicar pelas razões certas.
Para pensar
Você já acertou algo importante pelas razões erradas? Como saberia a diferença?
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