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Intermediário / Filosofia da ciência clássica

Positivismo: de Comte ao Círculo de Viena

O positivismo de Comte, que marcou a bandeira do Brasil, e o positivismo lógico do Círculo de Viena: o critério da verificação e por que ele ruiu.

IntermediárioFilosofia da ciência3 min de leitura

“Ordem e Progresso”, na bandeira brasileira, é um lema positivista. A palavra “positivismo” nomeia duas correntes diferentes: a de Auguste Comte, no século XIX, e o positivismo lógico do Círculo de Viena, no século XX. As duas têm em comum a confiança na ciência como modelo de conhecimento.

Uma analogia

O critério de verificabilidade foi como uma peneira feita para separar o ouro (o que tem sentido) da areia (a metafísica). O problema é que a própria regra da peneira, e até as leis da física, também passavam pelos furos.

Explicando para uma criança

Alguns filósofos acharam que só valia a pena falar do que dá para ver e medir. Era uma boa ideia para deixar as conversas mais claras, mas descobriram que, com essa regra, nem a própria regra dava para medir.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Distinguir o positivismo de Comte do positivismo lógico.
  • Explicar o critério de verificabilidade e suas falhas.
  • Reconhecer o legado do positivismo e a caricatura do termo no uso popular.

Ajuda ter lido: Empirismo e racionalismo.

Antes de ler: o que você pensa?

Num debate, alguém diz que “a bandeira do Brasil prova que o país foi fundado na ciência”.

O que o lema “Ordem e Progresso” realmente indica?

Ver o que a lição responde

A influência do positivismo de Comte entre os republicanos, uma doutrina filosófica e até religiosa, não a adoção do método científico pelo Estado.

O positivismo de Comte

Auguste Comte (1798–1857) propôs a lei dos três estados: o pensamento humano passaria do estado teológico (explicar o mundo por deuses), ao metafísico (por forças abstratas, como “essências”) e, por fim, ao positivo (por leis descobertas pela observação). “Positivo” aqui quer dizer o que é dado, observável, real.

Comte organizou as ciências numa hierarquia (matemática, astronomia, física, química, biologia e, no topo, a sociologia, palavra que ele criou) e defendeu que a sociedade fosse reorganizada pela ciência. No fim da vida, fundou uma “Religião da Humanidade”, com templos e calendário próprios. Um desses templos ainda existe no Rio de Janeiro.

No Brasil, o positivismo influenciou militares e republicanos como Benjamin Constant e Miguel Lemos, e daí veio o lema da bandeira, adaptado de “o amor por princípio, a ordem por base, o progresso por fim”.

O positivismo lógico

Nos anos 1920, filósofos e cientistas reunidos em Viena (Moritz Schlick, Rudolf Carnap, Otto Neurath, entre outros) e em Berlim (Hans Reichenbach) criaram o positivismo lógico, ou empirismo lógico. Inspirados pela lógica moderna e pela física de Einstein, queriam livrar a filosofia da metafísica.

A ferramenta era o critério de verificabilidade: uma frase só tem significado se for verificável pela experiência ou verdadeira por definição (como as da lógica e da matemática). “A água ferve a 100 °C” tem sentido. “O Absoluto se desdobra na história” não tem: não é falsa, é sem sentido.

Por que ruiu

  • O critério não passa no próprio teste: “só é significativo o que é verificável” não é verificável pela experiência nem verdadeiro por definição.
  • Leis universais não são verificáveis: “todo metal se dilata com o calor” nunca pode ser verificada por completo, pois fala de infinitos casos.
  • Quine atacou a distinção entre verdades por definição e verdades de fato, e mostrou que frases não são testadas uma a uma, mas em conjunto (holismo).
  • Popper propôs a falseabilidade como critério de demarcação, não de significado.

O legado

O positivismo lógico, apesar de abandonado como programa, criou a filosofia da ciência moderna: a ênfase na clareza, na lógica, na estrutura das teorias e na relação entre teoria e observação. Muitos de seus membros eram progressistas e fugiram do nazismo, levando essas ideias para os Estados Unidos.

Cuidado com o uso popular: hoje “positivista” às vezes vira xingamento para qualquer pessoa que confia em dados. Isso é uma caricatura: defender evidências não é aderir ao critério de verificabilidade nem à Religião da Humanidade.

Para guardar

  • Comte: lei dos três estados, sociologia e influência na bandeira do Brasil.
  • Círculo de Viena: só tem sentido o que é verificável ou analítico.
  • O critério ruiu, mas o legado de clareza fundou a filosofia da ciência moderna.

Para pensar

Que frases você ouve no dia a dia que não seriam verificáveis por nenhuma experiência? Elas são sem sentido ou só não são científicas?

Erro comum: “Positivismo é acreditar que só a ciência vale.” É uma família de doutrinas históricas específicas. O positivismo lógico tinha uma teoria do significado, e Comte, uma filosofia da história. Confiar na ciência não é ser positivista.
Pratique: Que corrente é essa?. Doze frases, seis correntes. Reconheça o ponto focal de cada argumento.

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