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Intermediário / Filosofia da ciência clássica

O critério da demarcação

Onde termina a ciência e começa a pseudociência? Da verificabilidade a Popper, Kuhn e Laudan, até os critérios múltiplos usados hoje.

O problema da demarcação é a pergunta: o que separa ciência de não ciência, e em especial de pseudociência? Popper o chamou de problema central da filosofia da ciência. Não é só acadêmico: tribunais, escolas e sistemas de saúde precisam decidir o que ensinar, financiar e aceitar como prova.

Uma analogia

A diferença entre ciência e pseudociência é como a diferença entre dia e noite. O crepúsculo não tem um minuto exato em que o dia acaba, e mesmo assim ninguém confunde meio-dia com meia-noite.

Explicando para uma criança

Às vezes é difícil dizer se algo é ciência ou não, como é difícil dizer exatamente quando alguém fica adulto. Mas tem casos bem claros, e os cientistas olham várias pistas juntas para decidir.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Formular o problema da demarcação e por que ele importa fora da academia.
  • Comparar as propostas de verificabilidade, Popper, Kuhn e Lakatos.
  • Explicar a crítica de Laudan e a resposta dos critérios múltiplos.

Ajuda ter lido: Popper e a falseabilidade, O que é pseudociência?.

Antes de ler: o que você pensa?

Uma escola quer ensinar o design inteligente nas aulas de biologia “para mostrar os dois lados”.

Que critérios ajudam a decidir se ele é ciência?

Ver o que a lição responde

Testabilidade, previsões novas, integração com outras áreas e produção em revistas científicas. Os tribunais dos EUA concluíram que o design inteligente não atende a esses critérios.

As propostas clássicas

PropostaCritérioProblema
Positivismo lógicoVerificabilidadeLeis universais não são verificáveis
PopperFalseabilidadeA astrologia faz previsões falseáveis (e falhou nelas); então seria ciência ruim, não pseudociência
KuhnExistência de pesquisa normal: resolver quebra-cabeças dentro de um paradigmaMuito permissivo: a astrologia teria problemas a resolver?
LakatosPrograma de pesquisa progressivo: faz previsões novas que se confirmamDifícil saber quando um programa estagnou de vez
ThagardPseudociência é o que fica menos progressivo que as alternativas e cujos defensores ignoram issoDepende de comparação e de atitude da comunidade

A “morte” da demarcação

Em 1983, Larry Laudan publicou “The Demise of the Demarcation Problem”. Argumentou que nenhum critério único separa todas as ciências de todas as não ciências, e que a pergunta certa não é “é ciência?”, mas “essa afirmação é bem apoiada pela evidência?”. Termos como “pseudociência”, dizia ele, são mais retórica do que análise.

A resposta: critérios múltiplos

Filósofos como Massimo Pigliucci, Sven Ove Hansson e Mario Bunge aceitaram que não há uma fronteira nítida, mas negaram que isso torne a distinção inútil. Hansson define ciência, no sentido amplo, como a prática que fornece as afirmações mais confiáveis (epistemicamente justificadas) que podem ser feitas, num dado momento, sobre um objeto de estudo; pseudociência é a doutrina que se apresenta como tão confiável quanto a ciência sem ter esse suporte. A definição cobre ciências naturais e humanas e desloca a pergunta da forma lógica das frases para a qualidade da evidência. A ciência seria um conceito de semelhança de família: um conjunto de traços que vêm juntos em graus. Ninguém sabe dizer o número exato de fios que torna alguém careca, e ainda assim há carecas.

Traços frequentemente usados:

  • Testabilidade e disposição a abandonar hipóteses refutadas.
  • Progresso: novas previsões e explicações ao longo do tempo.
  • Integração com outras áreas do conhecimento (a homeopatia contradiz a química).
  • Revisão por pares e crítica aberta.
  • Clareza dos conceitos e possibilidade de medir.
  • Ausência de apelos à perseguição e de dependência de autoridade fundadora.

Demarcação na prática

Em 1982, no caso McLean contra Arkansas, um tribunal dos EUA decidiu que o “criacionismo científico” não podia ser ensinado como ciência nas aulas de biologia, usando critérios como testabilidade e provisoriedade, com apoio do filósofo Michael Ruse. Laudan criticou a decisão pelos critérios, embora concordasse com o resultado. Em 2005, no caso Kitzmiller contra Dover, o mesmo se decidiu sobre o design inteligente.

Pseudociência e protociência: uma área nova, com poucas evidências mas aberta a testes (como a pesquisa sobre a origem da vida), é protociência. O que caracteriza a pseudociência não é estar no começo, e sim se recusar a crescer pelos caminhos da ciência.

Para guardar

  • Demarcação: onde termina a ciência; importa para escolas, tribunais e saúde pública.
  • Nenhum critério único funciona sozinho; Laudan sugeriu focar na evidência.
  • Critérios múltiplos tratam ciência como semelhança de família, com casos claros e casos de fronteira.

Para pensar

Que área você considera de fronteira entre ciência e não ciência? Que traços a colocam de cada lado?

Erro comum: “Se não existe critério perfeito, então não dá para chamar nada de pseudociência.” Fronteiras borradas não apagam casos claros. Vários traços juntos permitem classificar com segurança práticas como a homeopatia ou a astrologia.
Pratique: Detector de pseudociência. Marque os sinais de alerta de uma prática ou afirmação e veja o resultado.
Na BiblioVerse: Biblioteca de Conspirações, catálogo pesquisável de teorias da conspiração, pseudociências, fraudes e crenças falsas, e de como desmenti-las.

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