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A psicologia como ciência

Milgram, Zimbardo, Kohlberg e os experimentos que moldaram a psicologia moral: o que provaram, o que não resistiu à replicação e o problema de estudar quase só pessoas ocidentais.

IntermediárioMétodo científicoMente e vieses3 min de leitura

A psicologia é a ciência que mais aparece em livros de autoajuda e palestras, e também a que mais sofreu com a crise de replicação. Vale separar o que seus experimentos famosos mostraram de verdade do que virou lenda.

Uma analogia

A psicologia dos últimos anos é como uma casa que descobriu rachaduras na fundação e, em vez de pintar por cima, chamou os engenheiros. Alguns cômodos tiveram de ser refeitos; outros estavam firmes. A casa ficou mais confiável, não menos.

Explicando para uma criança

Cientistas que estudam como as pessoas pensam fizeram experimentos famosos. Depois, outros cientistas tentaram repetir e descobriram que alguns não davam o mesmo resultado. Agora eles tomam mais cuidado, e isso é bom.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Revisar o que os experimentos clássicos da psicologia mostraram e o que não resistiu.
  • Explicar o problema WEIRD.
  • Entender por que a psicologia é difícil e por que ela continua sendo ciência.

Ajuda ter lido: A crise de replicação, Vieses cognitivos e o método.

Antes de ler: o que você pensa?

Um livro afirma que “o experimento de Milgram prova que qualquer um faria o que os nazistas fizeram”.

O que a leitura cuidadosa do estudo permite dizer?

Ver o que a lição responde

Que a obediência à autoridade é mais forte do que se imaginava, mas que ela varia muito com a situação, que muitos resistiram e que o salto para “qualquer um faria” vai além dos dados.

Os experimentos clássicos, revisitados

  • Milgram (1961): participantes aplicaram o que acreditavam ser choques crescentes em outra pessoa, por ordem de um pesquisador; cerca de dois terços foram até o fim na versão principal. O achado básico, a força da obediência à autoridade, foi replicado em várias culturas, inclusive numa replicação parcial de 2009. Mas a análise dos arquivos mostrou que Milgram variou muito os procedimentos, que a obediência caía bastante em outras versões e que muitos participantes desconfiavam da encenação.
  • A prisão de Stanford (Zimbardo, 1971): estudantes divididos em guardas e prisioneiros; os guardas teriam se tornado cruéis espontaneamente. Gravações divulgadas em 2018 mostram que Zimbardo e sua equipe instruíram os guardas a serem duros. Hoje o estudo é visto mais como demonstração do que como experimento, e seus resultados não devem ser citados como prova de que “o papel faz a pessoa”.
  • Kohlberg: os estágios do desenvolvimento moral foram influentes, mas a amostra original era só de meninos, e Carol Gilligan criticou o modelo por tratar como inferior um raciocínio centrado no cuidado.
  • O teste do marshmallow: crianças que esperavam para ganhar dois doces teriam mais sucesso na vida. Uma replicação maior, de 2018, achou um efeito bem menor, que quase desaparecia ao controlar a renda da família.
  • Priming social, pose de poder, esgotamento do ego: efeitos famosos que encolheram ou sumiram em replicações grandes.

O que resistiu

Nem tudo caiu. Efeitos como a influência da situação sobre o comportamento (em termos mais modestos), os vieses cognitivos básicos, a aversão à perda, a conformidade de Asch e muitos achados da psicologia cognitiva e da percepção se replicam bem. O trabalho de Haidt e Greene sobre intuições morais rápidas se sustenta em linhas gerais, com debate sobre os detalhes.

O problema WEIRD

Em 2010, Joseph Henrich e colegas mostraram que a maior parte dos participantes da psicologia experimental vinha de sociedades WEIRD (ocidentais, escolarizadas, industrializadas, ricas e democráticas), em geral estudantes universitários, e que essas pessoas são atípicas em muitos traços: percepção visual, noções de justiça, raciocínio e até ilusões de óptica. Generalizar delas para “a natureza humana” é um salto.

Por que a psicologia é difícil

  • Efeitos pequenos, muitas variáveis e medidas indiretas (questionários, tempo de reação).
  • Pessoas sabem que estão sendo estudadas e reagem.
  • Conceitos como “inteligência” e “felicidade” precisam de definições operacionais discutíveis.

Nada disso torna a psicologia pseudociência. A diferença é que ela encontrou seus problemas com os próprios métodos, criou o pré-registro e as replicações em larga escala, e hoje é um modelo de reforma para outras áreas.

No Ética Para Iniciantes: os mesmos experimentos são discutidos pelo que dizem sobre o caráter e a responsabilidade em Milgram, Zimbardo, Arendt e em psicologia moral.

Para guardar

  • Milgram resistiu em parte; a prisão de Stanford e o marshmallow, muito menos.
  • Amostras WEIRD limitam o que se pode dizer sobre “a natureza humana”.
  • Encontrar e corrigir os próprios erros é o que separa a psicologia da pseudociência.

Para pensar

Que “fato” de psicologia você repete sem saber se foi replicado?

Erro comum: “A crise de replicação mostra que a psicologia é pseudociência.” Pseudociências não descobrem os próprios erros. A psicologia os encontrou com seus métodos e reformou suas práticas.
Casos para testar: Psicanálise.

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